terça-feira, agosto 03, 2004

O Tagacha

As minhas recordações do Tagacha são algo diversas da evocação feita pelo Filipe Fonseca, mesmo se reconheço a situação por ele descrita como muito frequente nas ruas de Alhos Vedros dos anos 70 e 80.
Por variadas as razões, a minha relação com ele sempre foi particularmente pacífica.
Nunca o chamei pela alcunha que o irritava, algo que sempre achei muito cruel por ver o estado alterado em que ele ficava. Mas, infelizmente, desde crianças temos uma tendência inata para pisar/desprezar os mais fracos e abusar do nosso poder, seja ele físico, económico, político ou apenas (de ofensa) verbal. Em contrapartida, nunca fui por ele ameaçado ou vagamente molestado.
Ligações algo indirectas faziam com que ele fosse longinquamente aparentado com alguns conhecidos meus e, por via da amizade, com um avô meu. Talvez por isso sempre o tenha visto como alguém merecedor de respeito.
Os seus olhos muito claros e límpidos e a correcção com que tratava quem o tratava com um mínimo de consideração estavam em contradição com as «bocas» que se ouviam sobre o seu comprtamento.
Quando passava por mim, apé, no seu passo algo trôpego ou na sua bicicleta, sempre de casaquinho abotoado só com o botão do meio, cumprimentava-me com aquela sua voz algo entaramelada, ao que eu respondia sem problemas.
Quando ia em grupo, ele evitava-me para escapar ao gozo dos outros, que já sabia que aí vinha, mas muitas vezes era eu que lhe falava, não me incomodando de distribuir umas boas «sapas» por algum amigo que se estendesse no comentário subsequente.
Por isso, embora tenha o seu lugar garantido de pleno direito na vasta galeria dos malucos de Alhos Vedros, o Tagacha é aquele que sempre considerei pior tratado por quase todos nós.

(Outros testemunhos - textos ou fotos - para avedros.clix.pt)

1 comentário:

Anónimo disse...

Já é um pouco tarde para responder a esta msg. Tagacha é e era o apelido da família, M.Cumprimentos
AB