quinta-feira, outubro 21, 2004

Início do 2º ano

Para assinalar o início do 2º ano da nossa vida iremos inserir aqui a parte mais relevante para o passado de Alhos Vedros do texto de Manuel António Boto sobre as aventuras e desventuras de Eláudio Tarouca de que colocámos imagens do original dactilografado no Alhos Vedros Visual.
O texto que se segue é retirado da obra publicada há um par de anos pelas Edições Ribeirinhas e pela CACAV


A Saga de Elaudo Tarouca
Por:Manuel António Bôto

De Alhos Vedros a Leon 1936.1939
Alhos Vedros – Uma corrente com muitos elos.

Eu vou narrar um episódio que teve início poucos dias antes da guerra civil de Espanha, baseado na vida de um rapaz pobre, pobre de dinheiro, então quase analfabeto, que nasceu e se criou na peque­na vila de Alhos Vedros, localizada na margem esquerda do rio Tejo, vila que fica a cinco quilómetros do Barreiro. Trata-se de um moço que, então, teria uns vinte anos de idade, idade do topa-a-­tudo, filho do regedor da vila, o senhor Tarouca.
Chamava-se o rapaz em questão conhecido de toda a gente de Alhos Vedros, Elaudo Tarouca. A história que vou narrar, parte é tal e qual eu a ouvi da sua boca e mais tarde confirmada por outras pes­soas, rememorando detalhes que aconteceram tal como se enca­deiam os elos de uma corrente. A outra parte, essa, foi-se desen­rolando diante de mim e da qual fui testemunha e, por vezes, até per­sonagem presente em certos detalhes.
Eu o conheci. Era um moço alto, forte, sem ser gordo, olhos vivos, inquietos, brilhantes, daquele brilho mais que reflexo, cheios de uma vivacidade contagiante e quase que para além do normal e, em certos momentos, parecendo até que aureolado por uma lumi­nosidade que o transfigurava. Mãos enormes, todo ele forte de osso e de vontade, uma determinação marcava-o nas expressões faciais, lábios grossos, moço alegre, atitude vitoriosa, corpo firme numa armação óssea assente sobre uns pés marca 40, a determinar um equilíbrio perfeito e correcto do seu corpo.
Alhos Vedros era, aí pelos idos de 1917, era, porque até hoje se modificou muito, uma pequena vila de uns 500 habitantes, a maior parte composta de ferroviários, que todos os dias iam trabalhar nas oficinas gerais dos caminhos de ferro do Sul e Sueste, no Barreiro. Havia também operários corticeiros, muitos mesmo, que movimen­tavam as 8 ou 9 fábricas de cortiça, que ali se tinham concentrado, pelas facilidades do porto fluvial e da estação de caminhos de ferro com que a vila contava. Uma dessas fábricas, a do senhor Hermenegildo Ramos, um alentejano funcionário superior do Monte Pio Geral de Lisboa, era gerida pelo seu pai... e dizia o meu velho, até que com certo orgulho, que tinha nascido e sido criado sobre uma cama feita de pranchas de cortiça. Havia ainda trabalha­dores que mourejavam de sol a sol nas marinhas de sal, havia cam­poneses, dois professores, um médico, uma farmácia, dirigida pelo senhor Ezequiel, uma fábrica de vidros, um forno de cal, três ou qua­tro padarias, um correio, onde todas as manhãs íamos perguntar ao senhor Pedro, ou à sua filha, se tinha chegado alguma carta para nós. Havia ainda uns dois ou três sapateiros, umas quantas lojas e mer­cearias, tudo em estilo pobre e onde todas as compras eram anotadas no rol, para pagar no fim do mês. Havia também muitas, mas muitas mesmo, tabernas, onde se vendia vinhaça... e alguma dela até feita de uva e se jogava cartas, onde, por vezes os ardores do álcool e o jogo de baralho armavam cada desordem, ao ponto do regedor e os seus dois «cabos dordes» terem de intervir a porrete limpo que eram as armas então usadas, para separar os desaguisados contendores de ocasião.
Alhos Vedros tinha ainda uma igreja, até que bem grande e uma misericórdia, as quais quando da implantação da República, em Outubro de 1910, tinham sido fechadas ao culto católico, o único permitido na época. Me recordo bem, aí pelos anos de 1919, 1920, quando todos os santos, o altar-mór, azulejos, vitrais, púlpitos, pias de água benta e todos os paramentos da igreja, que fica mesmo ao lado do pequeno cemitério da vila, foram vendidos em leilão, numa disputa pouco limpa entre católicos e bricabraquistas, a ver quem dava mais, onde, quase sempre, os especuladores das casas de bricabraque levavam a melhor. .. E, assim, o grande casarão da igre­ja paroquial, por ter ficado abandonado, passou a servir para a rapaziada do meu tempo, lá dentro brincar. Os seus grandes sinos, enormes mesmo, só passaram a servir para, no dia da Independência de Portugal, a primeiro de Dezembro de cada ano, tocar a rebate fes­tivo ou para anunciar que alguma fábrica de cortiça de Alhos Vedros estava ardendo, chamando os bombeiros do Barreiro que, quando ali chegavam, só restavam cinzas. Isto acontecia numa época em que quase todas as fábricas da vila arderam. Como a cortiça, nessa época de grande crise, não tinha saída para o estrangeiro... o melhor com­prador era uma fogueira... depois... bem, depois o seguro pagava... não muito satisfeito, mas pagava. Parece-me que, das fábricas da vila, só na que o meu pai era gerente, nunca entrou o tal «senhor Fogueira», comprador por atacado.
(Continua...)

quarta-feira, outubro 20, 2004

Colaboração de Guerreiro

Caros Amigos,

Ao navegar pela net descobri isto em http://usuarios.lycos.es/ocamarro/lavradio.html

Descrição Histórica do Lavradio

Lavradio foi um priorado da Ordem de Santiago, que o rei D. Pedro II doou a D. Luís de Mendonça Furtado, vice-rei da Índia, que ali nascera. Deve-se também a D. Luís de Mendonça a elevação do Lavradio à qualidade de vila no ano de 1670, na mesma altura em que o rei o fazia conde do Lavradio.
No entanto, como o conde do Lavradio faleceu sem sucessores, a vila passou para as mãos da coroa, não chegando o Lavradio a ser concelho independente.
No Lavradio possuíam os cónegos de S. João Evangelista, de Lisboa, uma quinta de que obtinham bons rendimentos com vinhas e marinhas. Tinham também uma ermida dedicada a N. Sra. da Piedade. Com a extinção das ordens religiosas a quinta foi vendida e a capela profanada.
O Lavradio pertenceu ao antigo concelho de Alhos Vedros que foi extinto pelo decreto de 24 de Outubro de 1855, após o que passou ao concelho do Barreiro.
Foram famosos os seus vinhos, especialmente o Bastardinho.

Guerreiro

O triunfo da estupidez

O texto que se segue foi-nos enviado por um leitor enfurecido com uma situação ocorrida no fim da tarde de 3ª feira dia 19, na Escola Básica D. Pedro II.
Como tínhamos referido, não pretendíamos incluir nenhum texto durante a semana em que comemoramos o 1º aniversário que não se referisse a Alhos Vedros mas, como a semana está quase a acabar e a situação descrita é de tal forma ridícula, achámos que não seria de todo errado incluí-lo desde já.
Refira-se ainda que fizemos os possíveis por confirmar os factos junto de outras fontes, desde amigos professores na dita escola como outros pais de alunos(as), e que no essencial a história é fidedigna. O título do post, confessamo-lo, porém, é de nossa autoria.



Sou um vosso leitor ocasional e nunca pretendi colaborar mas a fúria que me enche é tal que este parece ser a única via que tenho para divulgar o que se passou hoje na Escola D. Pedro II, em que a minha filha anda.
Resumindo, fui obrigado a carregá-la às cavalitas às seis e meia da tarde, no final das aulas porque a entrada da Escola estava de tal maneira inundada devido à chuva que ninguém conseguia passar sem ser com água quase pelos joelhos. Explicando melhor, parece que durante a tarde as sarjetas foram ficando entupidas junta ao portão da Escola e quando choveu mais a água ficou sem escoamento e foi acumulando-se até impedir que as pessoas passassem para dentro ou para fora.
O Conselho Directivo da Escola não interrompeu as aulas antes de ser tornar quase impossível passar e no fim da tarde, quando se juntam muitos carros e gente à saída da Escola, estava uma confusão enorme. Os alunos que não se importavam de se molhar foram saindo mas muitas dezenas ficaram retidos e foi possível ser transportados ás costas ou ao colo dos pais ou de outros colegas para de lá sairem. Alguns pais como eu perguntaram à funcionária da entrada porque não abria o portão para irmos recolher os nossos filhos ao interior do pátio, mas a senhora disse que o Conselho Directivo não deixava que eram ordens superiores, que não podem entrar pessoas estranhas à Escola. Que era preciso esperar por quem viesse desentupir a coisa. O que não aconteceu durante pelo menos uma hora ou mais. Ora eu sei muito bem, porque já vi muitas vezes que entram carrinhas e outros carros na Escola quando é preciso, ambulâncias, fornecedores, etc, em situações de emergência e não só. Desta vez, os senhores do Conselho Directivo acharam que não era uma emergência terem dezenas de crianças (e professores que também os vi) retidos na Escola que só sairam com o risco de ficarem ensopados e adoecerem.
Claro que o eterno professor Fernando, com o seu ar de santinho de pau oco estava bem refastelado na sua cadeirinha à espera que tudo passasse para sair pelo que me disseram, porque ele não tem mais que fazer na vida. Como a Dulcinia, outra senhora professora que também só se lembra dos seus interesses e que eu bem conheci quando ainda tinha o nariz como os seus pais o fizeram. Infelizmente para mal da nossa Educação são pessoas como estas que mandam nas nossas escolas e esquecem os deveres mais simples de respeito pelos outros e pela saúde das filhas dos outros pois se fossem deles por certo que podiam entrar no seu carrinho porque não eram pessoas estranhas.
A estupidez desta gente não tem limites e deviam ser chamados à responsabilidade por alguém porque o que aconteceu ontem á tarde foi uma vergonha. De incompetência, de descuido e de desrespeito. Infelizmente o que se passa é que são sempre os mesmos a mandar e ficam anos a fio no poleiro que ninguém de lá os tira. Quando é preciso mostrarem o que valem é o que se vê.
Crianças ensopadas e obrigadas a meter os pés em quase dois palmos de água e a ficarem com sapatos, meias e calças todas a escorrer água. A minha escapou porque a fui buscar mas claro que quando liguei para o telefone da Escola não havia ninguém para me atender porque deviam estar muitos ocupados no quentinho do gabinete.

Os meus maiores obrigados se divulgarem esta minha carta porque sei que não é este um dos assuntos que mais vos interessam

José Manuel Ferreira.

Votos do Manuel Pedro

Já passou um ano, desde que o Blog: Alhos Vedros ao poder se instalou contra tudo e contra todos na vida local.
Quantos desejariam que a tranquilidade e o status quo se mantivessem nestas águas estagnadas que é o concelho da Moita.
Mas a história não se pode contrariar, o que nasceu errado, continua errado e o erro que foi cometido ao ser deslocada a sede do concelho de Alhos Vedros para a Moita, por motivos até hoje obscuros não se pode ser omitida e será sempre recordada a todos os habitantes do concelho, enquanto existir este Blog.
Não é por os Alhos Vedrenses não se manifestarem que o assunto está fora de questão.
Os condicionalismos inerentes à situação de quase ditadura em que temos estado depois do 25 de Abril aqui neste triste concelho é que tem condicionado e muito, a intervenção dos Alhos Vedrenses.
Sob a fachada de um poder de esquerda e com as bandeiras de Abril desfraldadas por todos os motivos e utilizando esse alibi, o PCP têm-se mantido no poder desde 1975, na Madeira, João Jardim é criticado por se perpetuar no poder desde 1978.
Aqui o PCP está desde 1975...
Já não há espaço para dúvidas , o poder no concelho terá de mudar nas próximas eleições e quem o vai receber de mão beijada é o PS, com os seus novéis Socráticos: Eurídice Pereira, José Capelo, Heldér Pinhão e o cata-vento, Vítor Cabral .
Em Portugal nem as moscas mudam, e estamo-nos a tornar um imenso merdaçal, em que todos tentam apresentar-se politicamente correctos e todos com raras excepções, são imensamente medíocres .
O poder que se seguirá ao poder CDU que tem dominado, vai-se confrontar com diversos problemas que vai herdar da anterior gestão camarária:
- Excesso de funcionários camarários
- Erros de Gestão: O não conhecimento da zona ribeirinha, Exemplos:
- O Dique da Moita
- O Cais Novo de Alhos Vedros
- O não tratamento dos esgotos

Acreditem que vai ser difícil gerir este município da maneira como o PCP o deixará...
Desejamos ao PS boa sorte, pois bem vão precisar.
Quanto a Alhos Vedros, continuará menosprezado pelo poder moiteiro, verá a sua situação piorar de dia para dia e terá de esperar até que um movimento popular se levante e faça de Alhos Vedros, um concelho autónomo e só assim poderemos construir um futuro em que sejamos de novo o que fomos no passado !
Até lá os poderes moiteiros podem mudar mas Alhos Vedros será sempre menosprezado, ... por vezes de tão menosprezado será potenciado...?
Só com a vontade dos Alhos Vedrenses é que conseguiremos este objectivo, mas até hoje só temos constatado a passividade e a apatia dos cidadãos.
Provavelmente, interesses que nos escapam serão mais importantes...
O que faz falta é animar a malta, como dizia Zeca Afonso que aqui no concelho tem imensas praças e parques e ruas com o seu nome e que sempre contestou o PCP, que após a sua morte o idolatrou.

Saudações Restauracionistas de Manuel Pedro
19.Outubro.2004

Especial 1º aniversário - Memórias de Alhos Vedros VI

Memórias curtas II

Ir ao Cinema

Infelizmente já há muito não é possível ir ao cimena em Alhos Vedros.
Não sei se esta terra já teve muito ou pouco, pelos padrões das diferentes épocas.
A verdade é que, durante a minha vida, tem vindo a perder bastante.
Uma delas foi o cinema a meio da Avenida Bela Rosa.
Podia ser pouco confortável com os seus bancos de madeira e correntes de ar nas canelas, mas existia e esteve lá até à década de 70 acabar.
A primeira memória que tenho de ir ao cinema é dele.
Tinha uns 3 ou 4 anos e foi o filme «Os 10 Mandamentos» de Cecil B. De Mille e até hoje penso que os meus pais me levaram, porque não me quiseram deixar sozinho ou na casa de ninguém.
Do que me lembro com mais vivacidade foi que quando os sacanas dos egícios tentaram atravessar o Mar Vermelho e as águas, que se tinham levantado para os judeus fugirem, se fecham sobre eles apanhei um susto de morte e quase me borrei todo.
Depois, ou antes porque confesso que até hoje não consigo ver o filme sem um arrepio de terror infantil, quando o Charlton Heston levantou as tábuas dos ditos mandamentos e se dão os trovões e relâmpagos que enquadram a gravação dos mesmo nas pedras, eu fugi que nem um perdido pela coxia acima, em pânico, porque pensava que o mundo estava para acabar e o céu para cair naquele mesmo momento.
A custo fui apanhado pelo meu pai já quase na porta de saída.
Levado a ferros para o lugar, lá fui estoicamente resistindo a tudo o resto.
Penso que este é o maior elogio que se pode fazer ao cinema. Ter-nos dado algumas das maiores emoções da nossa vida.
E a mim, a primeira grande emoção foi nesse dia no velho cinema de Alhos Vedros.

terça-feira, outubro 19, 2004

Especial 1º aniversário - Memórias de Alhos Vedros V

Memórias de outros tempos (1947)

Alhos Vedros nem sempre viveu na pasmaceira em que se tornou.
A história de Eláudio Tarouca fez-me recordar outra “estória” que me contaram sobre as gentes de Alhos Vedros de há muitas décadas.
As gerações mais antigas passaram por tempos certamente mais difíceis que os nossos, mas nem por isso perdiam o ânimo para comemorar o que verdadeiramente interessava, independentemente das consequências.
O episódio que em seguida passo a descrever, foi-me contado por alguém que viveu a maior parte do século XX na vila e aí testemunhou como se viveram em Alhos Vedros alguns dos momentos marcantes dessa centúria. Os detalhes, por vezes, podem escassear mas o essencial permanece.
Estávamos em 1947, quando a Segunda Guerra Mundial ainda há pouco terminara.
Um pouco por todo o lado, alguma alegria tomava o lugar do desânimo que dominara os anos anteriores.
Entre nós, acreditava-se que a vitrória das democracias ocidentais levaria a uma inevitável transformação ou substituição do regime vigente em Portugal.
Acreditava-se numa possibilidade de Liberdade política, de opinião e da sua expressão.
A esperança não tardaria a desaparecer com tudo o que envolveu a tentativa do MUD e do General Norton de Matos irem a votos mas essa é outra estória da História
A estória que aqui trago passou-se quando, com a desculpa comemorarem o segundo aniversário do fim da guerra, um grupo de alhosvedrenses decidiu organizar uma marcha até ao Barreiro.
Lá se fez a coisa, com homens, mulheres e crianças, alguns e algumas pensando que iam para uma festa, com bandeiras dos países vencedores da guerra, incluindo a da União Soviética e outras bandeiras vermelhas, mas claro que estas enroladas para não darem nas vistas. A marcha seguiu atravessando lentamente mas com entusiasmo o descampado com duas ou trêss casotas que hoje conhecemos como Baixa da Banheira.
Os informadores – os conhecidos “bufos” – da região eram conhecidos, mas isso não pareceu atemorizar os entusiasmados manifestantes. No entanto, aqueles fizeram o seu trabalho e contactaram a GNR do Barreiro que decidiram não intervir imediatamente no evento mas ver no que dava a coisa.
A certa altura, com a tarde a avançar, os espíritos animaram-se e aos gritos de “Viva a Inglaterra”, “Viva a América” e “Viva a França”, o pé começou a deslizar e saíram uns vivas à “Rússia” ou “União Soviética”. No entanto, socorrendo-se do seu bom senso, os organizadoires da marcha decidiram não avançar até ao Barreiro e fizeram marcha atrás junto do cemitério do Lavradio, avisados de que algo se estaria a preparar.
Foi então que, com a marcha de regresso e já cansada, os GNR decidiram avançar pela estrada do Barreiro apanhando toda a gente junto ao “Forno da Cal”, entre a linha de caminho de ferro, as salinas e os muros das fábricas que aí existiam.
Diz quem levou, que foi o fartote de distribuir cacetada entre o pessoal em debandada, com destaque para um dos tenentes que comandava os atacantes.
Quem foi mais lesto escapou por onde conseguiu, fossem buracos nos muros da fábrica, pelo meio da água ou fugindo para o outro lado da linha férrea, até que a fúria amainasse.
No centro da vila, quem lá tinha ficado ia sabendo do que se passava pelos que iam chegando com mais ou menos vergões no lombo, nas pernas e nos braços ou com a cabeça a sangrar.
Ao entardecer estava tudo disperso, menos quem no centro de Alhos Vedros esperava pelos seus, resistindo às ordens policiais para recolher a casa. Ocupada até à noite Alhos Vedros viveu horas de expectativa para saber o que se tinha passado com quem faltava chegar.
Quem me contou isto diz que só voltou alta noite depois de escapar a uns bons pontapés do dito tenente quando tentou, com ar de não ser nada com ele, dizer que tinha ido “à festa”.
Nos dias seguintes, cada um dos intervenientes tinha muito para contar, acrescentando os mais imaginativos todo o tipo de peripécias mais ou menos mirabolantes a um acontecimento que, já de si, tinha muito que se lhe dissesse.
Outros tempos, outras aventuras, outras emoções, outra fibra nos de Alhos Vedros.

António da Costa, Outubro de 2004

segunda-feira, outubro 18, 2004

Especial 1º aniversário - Memórias de Alhos Vedros IV

Memórias curtas I
(estas são minhas)

Fruta da época

Agora que a época do figo acabou e a das laranjas ainda não abriu estamos no tempo das romãs e dos marmelos, fruta por excelência dos Outonos que se vão fazendo frescos.
Agora, para nossa tristeza, quase já só compramos romãs e marmelos nos super e hipermercados, provenientes dos pomares e estufas de Espanha, preços perfeitamente estranhos para quem cresceu a apanhá-las(os) directamente das árvores.
Nas últimas décadas foram a pouco e pouco desaparecendo por completo as árvores de fruto espalhadas um pouco por todo o lado em Alhos Vedros, em terrenos descampados, em quintas, terrenos ou apenas simples quintais.
Outrora, por cá, quem tivesse pouca vergonha e duas pernas para saltar um muro nunca passaria fome de fruta. Desde as bolas atiradas nos jogos do campo da “Largada”, que o Filipe Fonseca aqui recorda noutro texto, para dentro do laranjal que ficava para nascente só para se pedir autorização para lá entrar e, atrás da bola, virem umas braçadas de laranjas, ao esgueiranço entre a cerca de um terreno/quintal junto à Rua da Bemfadada onde existiam as figueiras com os maiores figos que já vi, tudo valia.
Romãs tinha-as do terreno de um avô e marmelos do quintal dos outros avós, mesmo se crus nem os conseguia provar. No entanto, nada sabia tão bem como a fruta, proibida, alheia, acabada de apanhar.
Infelizmente, isso dificilmente as novas gerações conhecerão, salvo uma ou outra nespereira, a figueira sobrevivente que ficava ao campo onde se jogava à bola e um ou outro laranjal que ainda sobrevive, como o que fica junto à Avenida Bela Rosa, até que se lembrem de urbanizar a coisa.

domingo, outubro 17, 2004

Especial 1º aniversário - Memórias de Alhos Vedros III

Futebol de Rua

Nunca tive grande jeito para jogar à bola, diga-se desde já. Facto que nunca impediu nenhum puto de jogar desalmadamente à bola em todas as oportunidades que tivesse, da infância à dolescência avançada. São cerda de 10 ou mais anos em que a bola parece ser a principal razão da diversão e da nossa exist~encia, enquanto as raparigas não vão ganhando o seu devido lugar.
À porta de casa, dentro de casa, nas ruas mais próximas ou mais afastadas, na Escola, em qualquer espaço aberto aproveitável, tudo era sítio para chutar a bola, em jogo mais ou menos colectivo, com mais ou menos amigos.
Pelo menos era assim quando cresci em Alhos Vedros nos anos 70 e existiam muitas opções para montar um campo, desde que houvesse a dita bola – e aqui não me limito a uma bola no sentido convencional, porque qualquer garrafa de plástico vazia servia, se mais não aparecesse – um punhado de malta para formar equipas (embora dois ou três já dessem para jogar às “balizas pequenas” ou de “baliza a baliza”), meia dúzia de minutos livres e umas pedras para fazer de postes.
Embora qualquer canto de rua servisse, em Alhos Vedros, entre o pessoal com que me dava, lembro-me de dois espaços principais para as jogatanas mais animadas e de maior dimensão: o largo “da Largada” junto à actual Humberto delgado (antiga Óscar Carmona) e o chamado “Campo das Figueiras”, perto do que agora é a creche Charlot mas então era apenas campo aberto a caminho das “Morçoas” que ainda nem esse nome sabiam ter. Era aqui que se encontravam, por exemplo, as equipas da “vila” e dos arredores.
Eram tardes inteiras de bola, no Verão desde o almoço ao jantar, sem descanso, sem lesões, sem foras-de-jogo, sem descontos de tempo, mesmo se com muita discussão quanto aos limites do jogo (tempo ?, nº de golos ?, quantos ?), às faltas mais ou menos intencionais (do pescoço para baixo era tudo canela da rija) e aos golos, pois os postes e a trave eram virtuais, para além dos pedregulhos que os assinalavam.
Ainda durante a primária, no intervalo da manhã, os jogos eram obrigatoriamente no largo do lado direito da escola (para quem saía do portão) que era ocupado pela classe que lá chegasse primeiro, a menos que os grandalhões da 4ª corressem com toda a gente, a bem ou a mal e ocupassem o território (técnicas do PREC, o que se haveria de fazer). Estes jogos serviam para os mais atinadinhos emporcalharem as batas que às 9 horas tinham chegado imaculadas, enquando os mais experientes e escaldados pelas tareias maternas, as enrolavam cuidadosamente em monte comum atrás das balizas para evitarem maiores males.
Portador de dois portentosos pés esquerdos, mesmo sendo destro, eu ficava sempre para perto do fim no processo de selecção de equipas. Não era o último a ser escolhido, porque havia um ou outro “caixa de óculos”, mas raras vezes ia à frente do penúltimo. Em dias maus, com nº ímpar de candidatos, até podia ser o que ia de brinde para a equipa reconhecidamente mais fraca. Em dias de encontro de estrelas, ficava na assistência e mais nada.
Em campo, quando não tinha o azar de ir para a baliza (havia um ou outro especialista), só tinha autorização para jogar à defesa e não passar da linha imaginária de meio campo, pois fintas só sabia fazê-las a mim mesmo. Já a parar adversários era mais forte e provoquei algumas ateragens memoráveis de avançados menos rápidos a evitarem-me. Era a chamada obstrução involuntária. Mesmo assim era sempre um fartote de correria e transpiração, sem se ver onde se punham os pés as pernas e tudo o resto. Nesse tempo e nessa idade ainda não se tinham inventado as lesões e, a menos que o tipo caísse de cabeça na pedra da baliza ou partisse a perna numa queda, continuava-se a jogar até que se pudesse. Os resultados, claro está, tendiam para os dois dígitos, tipo 13-9, 14-12, caso não se combinasse que acabava aos 10 para dar lugar a outra equipa.
A roupa ficava empapada de suor e poeira (Verão) ou lama (Inverno), mas isso só era relevante à chegada a casa quando nem sempre as mais plausíveis justificações eram aceites com caridade e as consequências se revelavam frequentemente bem dolorosas.
Mas, no dia sequinte, lá estávamos todos de novo.
Quer a “Largada” quer as “Figueiras” (já só sobrevive uma das três originais) desapareceram há muito, na função primeiro e depois no próprio espaço. Um foi sendo ocupado a pouco e pouco por casario, enquanto o outro foi sendo retalhado por ruas e agora serve, de quando em vez, para a instalação de um ou outro circo em digressão.
O que há muito não há são os gritos incessantes de miúdos em correria louca horas a fio sem qualquer outra preocupação que não fosse apanhar a bola e metê-la na baliza adversária. Quer dizer, no meu caso, era mais impedi-lo, mas acho que percebem a ideia.

Filipe Fonseca

Parabéns de TM

Caro Paulo (e demais autores do blog),

Como é óbvio, compreendo e aplaudo a decisão: "cesse tudo o que a antiga musa canta, pois valores mais altos se alevantam!"
Feliz aniversário... e, se não se aprovar a transferência da sede do nosso concelho para a Baixa da Banheira, então que regresse de onde talvez nunca devesse ter saído: Alhos Vedros!

Parabéns!

João Titta Maurício

PS (sem segundas intenções): é a 3ª vez que tentamos editar este post que, por qualquer razão, não quer entrar nem à força.

sábado, outubro 16, 2004

Especial 1º aniversário - Memórias de Alhos Vedros II

Atendendo à simpatia com que divulgaram um texto meu sobre o Estado da Educação em Portugal, venho desta forma corresponder ao pedido que me foi feito pela equipa do Alhos Vedros ao Poder para colaborar na comemoração do seu 1º aniversário.
Afazeres profissionais não me permitem produzir um texto original sobre as minhas memórias alhosvedrenses.
Em sua substituição envio um texto feito em finais de 1989, salvo erra, para publicação num dos primeiros número do Boletim da CACAV. O Raminhos ou o Manuel João Croca saberão mais exactamente em que número e data, pois não possuo nenhum exemplar da publicação.
À data, a construção do Centro Cultural José Afonso e a expansão da Helly-Hansen na rua onde vivia levaram-me a reflectir sobre a ideia de desenvolvimento existente no concelho. Felizmente já usava um PC Schneider já na altura e como guardo religiosamente as disquetes de então, ainda recuperei com o Word o texto feito inicialmente em Works. Quinze anos depois, apenas corrigi gralhas, coloquei acentuação então em falta e acrescentei um subtítulo.



Estórias - Ideias de Progresso

“Meus meninos, há uma coisa a que se chama civilização. É feita de esperanças e de sonhos. É só uma ideia. Não é real [...]. Há depois esta coisa a que se chama progresso. Mas que não progride. Porque à medida que o progresso progride o mundo pode escapar-se.”
Graham Swift, O País das Águas

Talvez seja um desnecessário excesso afirmar que o progresso não leva a parte nenhuma. Talvez seja bem mais importante ter em atenção que ele leva a muitos lados, em muitas e desvairadas direcções, infelizmente nem sempre as melhores, conforme a perspectiva de cada um.
Opôrmo-nos ao “progresso”, independentemente das variadíssimas facetas e cambiante que tal conceito abriga, é empenharmo-nos numa empresa voluntariamente fadada ao insucesso. Ele é algo de inevitável, de tão incontornável como o escorrer do próprio tempo, ao longo do qual tudo o que tem a sua existência, viva ou inanimada, se transforma.
Com maior ou menor velocidade, mais ou menos notória e quase independentemente da vontade daqueles ou daquilo sobre que(m) age.
Talvez a definição mais simples (e, no fundo, mais verdadeira) de “progresso” consista, apenas, na natural transformação de tudo o que existe no espaço, ao longo do tempo, desde a escala local à planetária. No sentido da simplificação ou da sofisticação e consistindo em aparente retornos a padrões do passado ou em avanços para caminhos ainda inexplorados, ele não pode ser parado. Com o tempo, o progresso acontece, porventura por ciclos, mas de forma sempre contínua. Nós apenas podelos modelar, no que estiver ao nosso parco alcance, o seu decurso, de maneira a dar-lhe um aspecto mais consentâneo com a nossa concepção (que, é necessário admiti-lo, nunca poderá ser a única válida) do que consideramos ser melhor.
Partindo do princípio (raras vezes abertamente contestado) de que nenhuma concepção do “progresso” tem legitimidade para se impôr, sem discussão, sobre todas as outras apenas porque é a dos detentores do poder político e/ou económico, vem-se aqui, após todos estes rodeios, abordar muito levemente alguns dos aspectos que nos últimos tempos têm marcado o “progresso” em Alhos Vedros, nomeadamente aquilo que mais nos (como dizê-lo de forma mais sensível) entra pelos olhos dentro.
Ou seja, falar daquilo que se costuma construir com o objectivo declarado de viverem lá pessoas ou aí trabalharem (ao que vulgarmente chamamos, casas, prédios, blocos de apartamentos, fábricas, etc, mas que no caso presente podemos perfeitamente substituir pelas designações bem mais expressivas de “caixotes” e “barracões”). Assim como da sua distribuição no espaço (o que se espera que resulte em ruas, travessas, cruzamentos...), do seu enquadramento com a paisagem, natural ou arquitectónica, já existente (o que se revela de extrema dificuldade pela sua inacessibilidade a espíritos menos elevados e esclarecidos, como o é o deste escriba) e, finalmente, do conjunto final resultante da conjugação urbanística de tudo isto no que, a priori, seria suposto ser uma unidade orgânica, lógica e funcional. Confesse-se, a partir de já, que coordenar ideias coerentes e lógicas quando o seu objecto é delas completamente destituído (a menos que se encontrem a um nível profundo, MUITO profundo) é tarefa árdua e ingloriamente ingrata.
Vejamos, por exemplo, o caso dos “caixotes” e “barracões”: qualquer alma é obrigada a admitir que a maioria de bom aspecto, nem a intenção têm. Prédios, fábricas ou centros culturais, não passam de um aglomerado de paredes, toscas e feias, onde não assoma o mínimo laivo de ideias de verdadeira arquitectura, a não ser a de diminuição máxima dos custos, e em que é estranha a noção de que a originalidade deve ter uma (não tão dispensável quanto isso) relação com criatividade.
Depois, constatamos que ou estão agrupados aos montinhos sem nenhuma directriz visível na sua arrumação, ou se encontram em locais onde a sua harmonia com o meio envolvente faz lembrar a de um elefante rodeado por um bando de pintaínhos que, aterrorizados, o tomam pela mãe-galinha. A necessidade de enquadramento urbanístico por parte de quem projectou/autorizou a sua construção restringe-se à vaga e difusa ideia de que “enquadramento” deve ter algo a ver com “quadrado” e de que “urbanístico” soa bem, mas como começa por uma das últimas letras do alfabeto, seria preciso ler o dicionário até à letra “u”, o que não é coisa ao alcance de todos, pormuito boa vontade que haja. Quanto ao problema do enquadramento paisagístico é resolvido muito mais facilmente. Como, por regra, se destrói a paisagem para construir, na sua essência, esta é uma falsa questão.
Isto não é excesso de ironia mas, se bem repararmos no surto que se verifica por toda Alhos Vedros, quer como cartões de visita nas suas entradas, quer no seu interior, talvez se esteja é a pecar por moderação pois o vazio de ideias e a enfadonha monotonia do fenómeno é geral e nem se percebe porque nuns lugares toma o nome de “fábrica” e, em outros, de “centro cultural”.
Se em algumas destas construções se produz riqueza, seria de interrogar qual o seu destino principal e em que condições é produzida, se em outras se pretende criar e expôr “cultura” conviria perguntar “quando?” e “o quê?”.
Mentes tacanhas continuam a associar maior mprogresso a mais e mais construções e pessoas em circulação. Isso é tomar a nuvem por Juno. Mesmo nos nossos tempos já se começou a abandonar tal associação de ideias. Já não se pensa apenas em termos de “mais”, de quantidade, pura e simples. Começa-se a dar uma importância fundamental a “melhor”. Mais, sim, mas Melhor. A qualidade do progresso começa a impôr-se como um imperativo inegável. Mesmo em outras zonas do nosso concelho isso é visível. Porquê em Alhos Vedros, tal desnorte no planeamento urbanístico ?
Porque não fazer as coisas um poucochinho melhor e com maior consideração pelas pessoas que delas se vão utilizar ? Porquê encaixotá-las no seu trabalho, no lar, na rua, nos espaços de lazer ? Porquê tão completa ausência de qualquer fio condutor de um pretenso “progresso” que parece esquecer aqueles que deveria servir ? Porquê a inexistência de critérios minimanente perceptíveis, coerentes (o que não quer dizer necessariamente padronizados pela mediocridade) e, já agora, transparentes ? Ninguém tem culpa de não saber fazer mais, mas pelo menos que exista a dignidade de dar a conhecer os seus processos de decisão. No fundo, só apetece perguntar incessantemente o porquê das coisas.
Porquê ? Porquê ? Porquê ?
“Meninos, não deixem de perguntar. Porquê. Não parem com os vossos Porquês, professor ? Embora seja mais difícil quanto mais vezes vocês o perguntarem, embora seja mais inexplicável, mais doloroso e a resposta nunca pareça correcta, nunca tentem fugir a essa pergunta – Porquê ?”
Graham Swift, O País das Águas
Paulo Guinote

Esclarecimento

Para que fique claro, até ao próximo dia 21, em que iniciaremos o nosso 2º ano de existência, só incluiremos posts subordinados ao tema de "Memórias de Alhos Vedros".
Por isso, um longo texto de Titta Maurício, de novo sobre a questão do aborto, bem como a consequente resposta, só surgirá depois dessa data. Também por essa razão ainda não aludimos aqui ao que se passa na vizinha Câmara de Palmela, com as demissões em bloco de pessoas ligadas ao urbanismo. Ou, agora mesmo, às ligações estranhas entre autarcas e construtores civis na Amadora.
Não foi nenhuma pressão da administração, mas apenas o facto de queremos assinalar a nossa data com escritos sobre Alhos Vedros.
Se Titta Maurício, ou qualquer outra figura política do concelho, tem algo a dizer/escrever sobre o assunto, muito bem. Caso contrário, o que chegar só entra para o fim da próxima semana.
Agradecemos a compreensão de todos.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Especial 1º aniversário - Memórias de Alhos Vedros I

O Carnaval numa terra sem lei

Pediram-me um texto sobre memórias minhas de Alhos Vedros para assinalar o primeiro aniversário deste blog com o qual, de vez em quando, me digno colaborar. Aqui vai o que me ocorreu.

Em tempos em que a única manifestação popular com alguma dimensão em Alhos Vedros se resume ao desfile de Carnaval, numa versão meio abrasileirada, nada como recordar como as coisas eram no Entrudo de outros tempos que, para espanto nosso, já têm um quarto de século.
Para quem o viveu, o Carnaval de Alhos Vedros na segunda metade dos anos 70 era uma manifestação digna do velho faroeste.
Em especial no Domingo e Terça-Feira na curva da Estrada Nacional junto à Barbearia do “Setúbal”, da Taberna do Zé António e da antiga papelaria (de que não me lembro o nome) assistia-se a espectáculos impagáveis.
A partir da hora do almoço o pessoal ia-se juntando, assim como quem não quer a coisa.
A água estagnada do poço abandonado onde agora existem apartamentos ou a da bomba pública junto ao Coreto e frente à “Velhinha” era cuidadosamente recolhida em sacos pelos mais empreendedores e galhofeiros. Depois esses sacos eram alegremente despejados nos incautos condutores que, de janela aberta, passassem e abrandassem para fazer a curva ou, em momentos mais parados, sobre quem estivesse mais a jeito. A entrada/saída lateral do café do Júlio servia normalmente de atalho, para quem depois acabava por sair na Humberto Delgado como se nada fosse consigo.
Embora a cena se repetisse anualmente, a GNR só aparecia tarde e más horas para tentar dar uma aparência de ordem ao local. Eram normalmente dois agentes, nenhum deles a primar pela elegância, aprumo ou aparência de autoridade. Tentavam acomodar-se numa das esquinas do cruzamento, sendo rapidamente deixados isolados para servirem melhor de alvo. Com maior ou menor celeridade, lá vinham uns projécteis atirados por trás das casinhas da esquina contrária e lá tínhamos os sôres agentes mais ou menos molhados conforme a pontaria dos atiradores.
E assim se passava a tarde até ao anoitecer e a luz escassear, lá pelas 6 ou 7 da tarde.
Num desses Carnavais, um infeliz condutor mais corajoso (talvez pelo facto de ir num Mercedes, o que na época era sinal de estatuto bem mais raro que hoje) decidiu abrir a porta e vir discutir com quem lhe atirara água pela janela; imediatamente levou um balde inteiro em cima de outro folgazão, desatando então em correria, em perseguição de quem o molhara. O resultado foi que não apanhou o prevaricador (salvo erro o Zé Eduardo, que se escapou pela Cândido dos Reis acima) e deixou o carro à mão de semear do resto da turba. Penso que, mesmo para quem não assistiu, o desfecho não deixará grandes dúvidas. Quando voltou tinha o carro que parecia ter passado por Sadr-City nos dias que correm.
Bons velhos tempos de inconsciência e divertimento selvagem e luso.
Nada de meninas mal descobertas a tiritar de frio, em cima de camionetas mal amanhadas, imaginando que que estão a desfilar no Sambódromo com 40 graus à sombra.
Enfim, não havia dinheiro para mais, mas a malta divertia-se muito.

José Silva

quinta-feira, outubro 14, 2004

Efeméride

Entramos hoje na 52ª semana de existência, o que significa que daqui a uma semana completamos o nosso primeiro aninho de vida.
Inicialmente, pensámos assinalar o evento com a inserção de um conjuntos de posts dos nossos colaboradores e amigos que tiveram a paciência de corresponder ao nosso apelo. No entanto, perante a extensão de alguns dos textos recebidos, e para que cada um tenha o seu devido destaque, a nossa equipa achou melhor ir colocando um em cada dia da semana.
O tema aglutinador é o de «Memórias de Alhos Vedros», estando neste momento em carteira os seguintes textos, em princípio a aparecerem por esta ordem:

* Carnaval numa terra sem lei, por José Silva
* Sobre a restauração do concelho de Alhos Vedros, por Manuel Pedro (texto de 1999 a inserir como imagem no fotoblog a partir do original publicado n’O Rio nº 34 e que podemos considerar como o documento fundador do nosso movimento)
* Estórias, por Paulo Guinote (texto original de 1989 que este nosso amigo nos cedeu e originalmente publicado num boletim da CACAV nesse ano ou no início de 1990)
* Futebol de rua, por Filipe Fonseca
* Memórias de 1947, por António da Costa

Em paralelo, integraremos no fotoblog a imagem das primeiras páginas dactilografadas do conto/crónica/relato de Manuel António Bôto sobre Euládio Tarouca, um alhosvedrense que nos anos 30 combateu na Guerra Civil de Espanha. Já existe uma edição em livro com poucos anos, mas é sempre agradável revermos as páginas do original produzido há 30 anos, mais exactamente em Dezembro de 1974.
Fizemos esforços, mas até agora infrutíferos, para desencantarmos uns exemplares de antigos periódicos de Alhos Vedros (que os houve), mas parece que levaram sumiço os que um nosso parente tinha em depósito.

Para depois ficará a prometida divulgação da transcrição das cassetes que documentam a 1ª reunião do CACETE, que como já anunciámos é o Comité Abrangente para o Combate Eleitoral contra o Totalitarismo de Esquerda, plataforma que inclui todos os partidos que no concelho da Moita estão contra o monopólio do PC na autarquia moiteira.

Censura(s)

A leitura do bom (mesmo se algo "curto") artigo da Visão sobre os esforços do actual Governo para domar a comunicação social trouxe-me à memória o saudoso jornal humorístico Os Ridículos em 1917 quando o governo da chamada "União Sagrada" recorreu á censura com motivos de segurança nacional (estava-se na Grande Guerra).

O primeiro excerto seleccionado é o que se segue:

"O parlamento norte-americano recusou-se a sancionar o projecto de lei estabelecendo a censura.
Pois não sabe o que é bom, e perde a melhor oportunidade de completar a sua educação civica.
A censura é das mais nobres instituições que a imaginação liberal tem creado. Nós que aqui estamos fallando não sômos dos mais castigados. Em boa hora o digamos. E d'alto !
Mas faz gosto pegar em alguns de Lisboa, e vel-os cheios de coisa nenhuma, como se os redactores estivessem todos a banhos.
Os Estados Unidos que são uma velha democracia estão-se nas tintas para fazerem a experiencia. É sina das raças decadentes resistirem a toda a especie de innovação. C nós, ninguem nos deita a barra adeante. Em sendo coisa radical, queremos sempre o premio grande.
Isto cá é mais que Republica; é um concurso hippico."

Os Ridículos, 6/Jun/1917, p.2

Este segundo comentário foi censurado mas está disponível na colecção do jornal depositada na Hemeroteca Municipal de Lisboa. A edição original saiu com uma “bexiga” (espaço em branco)neste local da página (também se pode encontrá-lo no blog Abrupto do Pacheco Pereira, p+ara onde o enviámos).

“Com uma imprensa d'estas, aonde jornaes aconselham aos exaltados politicos a liquidação dos directores de outros jornaes, n'uma imprensa cheia de intruzos que d'ella só fazem biombo para arranjos politicos, n'uma desgraçada situação d'esta ordem... é fechar os olhos e deixar ir para o fundo !
Resignação e esperança de que melhores dias surjam para a nossa querida terra ! "

Os Ridículos, 5/Jul/1916, p. 2

quarta-feira, outubro 13, 2004

Alhos Vedros, vila do vício ?

Em vez de um curral de bois à moda da Moita, Alhos Vedros parece estar a tornar-se um simpático antro da devassidão sexual.
Já não nos chegava a antiga Kleopatra para quem chega da Moita e o novo Strip Club para quem vem da Baixa da Banheira, agora até temos um pseudo duo musical lésbico ?
Ena, ena...
Sempre é melhor que a Igreja Maná à entrada da Baixa ou o campo do Moitense à entrada da Moita.

terça-feira, outubro 12, 2004

Manifesto Anti-Média Capital

Agora que os meios de informação estão quase todos nas mãos de dois ou três mega-empresas das quais são a Lusomundo e a Média Capital as principais detentoras destes monopólios informativos ... Faço aqui um apelo ao boicote activo ao grupo Média Capital, cuja política é de acabar com a concorrência comprando e extinguindo depois as mesmas empresas concorrentes; vou dar um exemplo desta política destrutiva: recentemente a Média Capital comprou as rádios Voxx e Luna, a Voxx passava música independente e alternativa e a Luna, do Montijo, passava música clássica, Jazz e música de Filmes de muito boa qualidade, estas duas rádios tinham para mim muita qualidade, mas muito pouca audiência. O grupo Média Capital comprou-lhes as frequências e extinguiu as duas rádios retransmitindo agora nas suas frequências canais de rádio comerciais, sem qualidade, como é a Best Rock por exemplo.
Estas rádios assim como a Rádio Comercial só passam playlists que são um conjunto de músicas que as grandes editoras multinacionais lhes pagam para passarem até à exaustão com o objectivo depois de venderem esses produtos de consumo às dezenas de milhar, devido à divulgação nas rádios do grupo Média Capital.

Os programas de autor estão proibidos nas rádios desse grupo e o disc-jockey que se atrever a passar uma música que não esteja na dita playlist vai aumentar a lista de desempregados deste país.
Isto significa que alguns grupos e artistas portugueses, mas também muitos grupos estrangeiros de qualidade que não estão nas grandes editoras multinacionais nunca são divulgados, porque as editoras multinacionais consideram por exemplo as músicas nacionais não anglo-saxónicas subprodutos da indústria discográfica e sem possibilidade, logo à partida, de sucesso.
Todos os grupos portugueses e artistas nacionais estão neste grupo de menosprezados, exceptuando cinco ou seis fenómenos nacionais que são os Madre Deus, Marco Paulo, os Delfins, a Amália Rodrigues o Rui Veloso e o Pedro Abrunhosa e a isto se resume a música portuguesa que é divulgada em Portugal por este grupo Média Capital e pelas grandes editoras discográficas.

Artistas como Fausto, Paulo de Carvalho, Mind da Gap, Adolfo Luxúria Canibal, Irmãos Catita, Ronda dos quatro Caminhos, Camané ou Francisca, por exemplo, apesar da sua grande qualidade não passam nas playlists deste grupo, cujo dono é também um fervoroso apoiante do P.P.

Agora a Media Capital, está interessada em adquirir parte do grupo que possui a rádio TSF e os jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias, isto quer dizer que vão deixar de existir espaços autónomos de informação e como esta empresa é privada o que sucederá e já está a suceder com o caso do Marcelo Rebelo de Sousa é o regresso da censura, agora duma forma mais perigosa porque é uma empresa privada que detendo a maioria dos meios de comunicação, pode censurar os seus funcionários e colaboradores exercendo pressões económicas sobre eles e o Estado pode pressionar essa empresa a nível político para condicionar a sua actuação, isto é o puro capitalismo selvagem que se instalou em Portugal.
O maior problema é que o monopólio dos media, acaba com a heterogeneidade e a diferença de outras opiniões.
De que serve existir a opção de ter 20 rádios se todas são parecidas ?

Esta empresa não pode continuar impunemente a destruir a nossa liberdade de escolha, por fazer um não serviço a Portugal e aos portugueses, venho por este meio pedir um boicote activo por parte de nós, o público, a este grupo!

Televisão:
TVI

Portais na Internet:
IOL
Portugal Diário
Mais Futebol
Cotonete

Rádios:
Rádio Comercial
Rádio Clube Português
Best Rock
Cidade FM

Revistas:
LUX
LUX woman
MaxMEN
Casas de Portugal

Não Vemos, não ouvimos, não lemos e só podemos ignorar !
Joaquim, o Contraditório (o nosso)

segunda-feira, outubro 11, 2004

Para breve

Brevemente, em exibição neste blog:

O MANIFESTO ANTI-MÉDIA CAPITAL

Reserve já o seu lugar

Tempos sombrios

O nosso primeiro vai falar logo à noite.
Depois de ter levado puxões de orelhas do Presidente e, quase certamente, do José Burroso, hoje ao almoço, talvez neste mesmo momento em que escrevo.
Depois de ter, num número de aparente malabarismo duvidoso, nos Açores, ter desautorizado tudo o que pacientemente o seu Ministro das Finanças tinha explicado há pouco tempo acerca da sua política para o IRS.
A ideia forte parece ter sido: se a malta está preocupada com o Marcelo, vamos dizer que cortamos nos impostos para voltarem a gostar de nós.

Uma boa ideia, corajosa, séria, decente, seria hoje à noite, na sua comunicação ao país, que Santana apresentasse a sua demissão e nos mandasse a todos a votos.
Mesmo nesta democracia incompleta em que vivemos, um banhito de legitimidade eleitoral nunca faz mal à governação.
Isso, sim, seria uma lição de dignidade que daria a todos os seus críticos e ao par responsável pelo atoleiro em que estamos: o citado Burroso e o arrependido Sampaio.

Então todos nós teríamos de direito a exercer o nosso contraditório.

domingo, outubro 10, 2004

Alhos Vedros Visual

Visitem-no.
Tem algumas novidades e uma deliciosa entrada da secção "Nostalgia".

Proposta de Outono

Não se esqueçam, amanhã começa a série V de Os Sopranos.
Já estou a fazer exercícios de aquecimento às meninges.
Para preparação, visitem o site.

São rosas, senhor

Vivemos em tempo de milagres.
De 40 metros quadrados nascem 168.
Perante o escândalo, aparece um telheiro salvador.
Ah ah!! Dizem os serviços acusadores!!
Derrubai esse telheiro prevaricador ou seremos inclementes.
O patego abre a boca de espanto. Afinal ainda há Lei e Ordem nesta nação.
Oh oh... diz o ministro. Fui apanhado. Derrubado o telheiro será!
E assim viveremos todos felizes para sempre.

(Enquanto cai o pano, em fundo e em décors a lembrar os do filme Moulin Rouge, o senhor comunista presidente e o senhor popular ministro dançam o cancan de braços entrelaçados)
Amar o Sul, Amar o Sul, Amar o Sul !!!

Velhas siglas, novos significados

Diz-me um amigo da Caixa que, para o mercado internacional, CGD é a sigla de Celeste’s Garden of Delights.
Já outro amigo do Montepio me diz que MG passou a significar Maridinho’s Garden.
(Para quem não percebeu esta última tem a ver com as avenças que transitam no casal como se fossem rendas de casa do tempo da velha senhora.)

É triste mas é verdade

Há já muito tempo que, tirando um ou outro mendigo declarado, não via pessoas a ir aos contentores de lixo vasculhar os restos aí lançados, de comida, de objectos semi-utilizáveis, ou mesmo papelões e garrafas. Pessoas com um mínimo de aspecto que se vê terem sido empurradas para isto para não andarem a pedir de porta em porta.
De há um par de anos para cá comecei a vê-las à noite, meio escondidas, por vezes imigrantes de Leste. Agora, já não são só esses e já é mesmo à luz do dia.
É este o Portugal que temos.
O que interessa é a estabilidade política e a protecção dos interesses dominantes.
E, já agora, que o nosso Ministro da Defesa possa acabar por completar a sua equipa de assessores com o último que faltava dos tempos heróicos da Moderna e da Amostra.
O que interessa é recompensar as velhas solidariedades e os silêncios.
O resto, o “povo” com que se enche as bocas em tempos de campanha eleitoral, que se desenrasque.

Resposta de Luís Guerreiro a comentário de Roldão Preto

Caro Roldão Preto, a visão que temos do Mundo é completamente diferente e não existem pontos de contacto a nível ideológico, quero por isso dizer-lhe que não estou disposto a alimentar discussões estéreis como as que teve com Titta Maurício, as polémicas sobre quem defende melhor a direita ou quem se assume mais integralista ou menos, não me interessam minimamente.
Eu Luís Guerreiro assumo-me como um homem de esquerda.
Por isso vou cingir-me ao tema do meu pretenso colaboracionismo com a Moita, ou o poder moiteiro como no Blog é divulgado.
Escreveu o senhor em 23.9.2004 o seguinte comentário no Alhos Vedros Visual o vosso foto blog:


"Embora aprecie a Arte em Azulejo do Luís Guerreiro, quero aqui frisar que o intuito do Blog: Alhos Vedros ao Poder é em primeiro lugar, a Restauração do Concelho de Alhos Vedros e em segundo lugar a luta contra os Lobbys moiteiros, e se bem sabemos este artista já colaborou com o poder moiteiro fazendo diversos painéis para o mercado da moita, no qual se repararem todos os painéis são temas da Moita (4), e nenhum faz alusão a Alhos Vedros, com as suas actividades corticeiras ou salineiras por exemplo. É esse menosprezo para com Alhos Vedros que a Moita sempre teve, que devemos recordar, mesmo a Luís Guerreiro ou a qualquer outro artista colaboracionista.
Roldão Preto"

As encomendas que recebi da CMM, especialmente dos painéis para o Mercado Municipal da Moita foram escolha do então presidente em exercício em 1992, porque eu até apresentei outros desenhos como opção.
Tem razão em protestar pelos temas serem todos sobre a Moita, mas a culpa não é minha, eu fui apenas o executor da obra.
Esses painéis na altura até deram uma certa polémica porque os Bonjours o pai, já falecido e o filho puseram as fotos dos painéis do Mercado na sua montra, dizendo que eram cópias dos seus arquivos, o que era mentira, pois foram feitos a partir dum postal antigo que existia na Junta de Freguesia da Moita.
Na altura fui lá explicar aos Bonjours o seu equívoco e tudo se resolveu, sendo as fotos e a mensagem retirados da montra da Foto Bonjour.
Uns anos depois em 1996 ou 1997, apresentei ao então vereador, João Lobo uma proposta para completar a obra que está no Mercado Municipal com painéis temáticos trípticos sobre as actividades, história e actualidade, dedicados a cada uma das freguesias do concelho da Moita, sendo a imagem central do tríptico em azulejos a cores e os outros dois de cada tema em sépia , como os que estão lá.
Nem João Lobo nem ninguém da CMM, respondeu a esse meu pedido...Recordo a Roldão Preto que sou profissional de Azulejaria Artística e não tenho outra fonte de rendimentos e Deus sabe as dificuldades que eu tenho tido nos últimos tempos, por causa da crise em que está mergulhado o País e também porque não compartilho a ideologia do poder local, nem nunca a compartilhei, mas só em casos extremos me recuso a aceitar uma encomenda o que também já aconteceu, quando a Firma de desmantelamento de barcos Batista & Irmão que têm, como sabe o concessionamento do Cais Novo de Alhos Vedros, me encomendaram em 1989 um painel em azulejos sobre o tema, para colocarem na sua sede em Sacavém, o meu primeiro impulso foi recusar terminantemente, mas resolvi apenas não lhes dar resposta, como também não me voltaram a comunicar, o caso encerrou por aí.
Perdi essa encomenda, mas fiz o melhor para com a minha consciência...
A verdade é que eu compartilho o seu ódio para com esse monstro que anda a destruir essa zona ribeirinha de Alhos Vedros.

Recordo com saudade os tempos em que ia mergulhar no Cais Novo e nadar naquela praia lá ao fundo, cheia de barcos e pessoas que iam para lá ás dezenas.
Recordo também a apanha de caranguejos, nas tocas ou com camaroeiro.
Os barcos no cais novo eram poucos e as pessoas ainda podiam entrar no cais para pescar. Agora é o que se sabe e tudo o que nem sequer imaginamos.
Eu, o Paulo Gil o Marmota, o Puto Russo o Zé Tó, o Animal, o Cristiano e toda essa malta que formava o grupo da Caverada, em 1977, 78.
Pode por isso o Sr. Roldão Preto, ter a certeza que tem em mim, muito mais um seu apoiante do que um inimigo.
Fiquei particularmente triste quando Roldão Preto afirma que sou colaboracionista com lobbys Moitenses, eu que em todas as exposições que fiz em Portugal e também no Brasil, sempre bem alto o nome de Alhos Vedros, como aliás pode ver junto à minha assinatura em todos os painéis produzidos pela Azulejaria Artística Guerreiro, desde 1989.
Recentemente consegui inclusive meter Alhos Vedros no mapa das “Rotas da Cerâmica”, como em post anterior comuniquei ao vosso Blog.
O Sr. Roldão Preto é colaborador do blog: Alhos Vedros ao Poder, mas as suas opiniões podem também ser questionadas, porque não é Deus nem Cavaco para ter certezas absolutas e nunca se enganar !
O meu percurso como artista não pode ser associado a qualquer ideologia, tenho de servir todos os clientes com a maior imparcialidade e fazer todo o tipo de trabalhos para todo o tipo de pessoas que me contactem.
Os meus parâmetros são apenas a qualidade.
Para lhe dar uma ideia da abrangência que tenho de ter, afirmo-lhe que nunca apreciei a tauromaquia, mas isso não me impediu, nem poderia, de desde 1989, fazer todos os anos os Trofeus para a Tertúlia Tauromáquica Setubalense conseguindo penso eu, abranger o gosto e a estética próprias desse fenómeno que é também artístico.
Podemos não gostar, mas temos de respeitar as suas nuances artísticas.
Poder-lhe-ia dizer que possuo as imagens da revista tauromáquica “La Lídia” que são impressas antes do advento da fotografia com gravuras e são absolutamente lindas num conceito estético pós-Romântico dos finais do séc. XIX que muito aprecio.
Outros conceitos sobre arte eu poderia desenvolver, como por exemplo o Realismo Socialista Soviético e a Arte Nacional –Socialista, que são épicos à força do homem sobre os elementos que eu gosto muito e cujas ideologias detesto e lutaria sempre contra.
O que pretendo dizer-lhe é que a Arte pode valer por ela própria e mesmo que sirva para enaltecer um regime ou uma ideologia, não tem de ser negada por isso mas apenas tem ser entendida por concepção estética do autor.
O “colaboracionismo” com o regime fascista de Salazar que Almada Negreiros teve não impede que as suas obras sejam maravilhosas e uma referência da Arte Moderna Portuguesa e Mundial.
Sei que a sua realidade é muito diferente da minha, pois sou um leitor atento deste Blog, sei por isso que foi militar e voluntariou-se para ir lutar na guerra colonial...
Acredito que seja um homem de convicções, mas eu também o sou e só respeito quem me respeita.
Por isso peço-lhe que pondere melhor antes de começar a criticar a torto e a direito, respeite a minha condição de artista porque acredite que não é nada fácil viver só da Azulejaria aqui no Concelho da Moita e só com muita teimosia e uma ajuda muito grande da minha companheira e da minha família é que a AAG ainda continua.
Mas cá estou para a luta e para continuar engrandecendo na medida do possível o nome da minha terra natal: Alhos Vedros e por acréscimo o concelho a que actualmente pertence: O Concelho da Moita !

Sem mais assunto despeço-me com amizade
Luís Guerreiro

sexta-feira, outubro 08, 2004

Macro e micro

Quem pensa que os jogos de influências entre os mundos da política, economia e comunicação social se limitam aos grandes interesses nacionais, revelados agora de forma mais transparente no affaire Marcelo, está muito enganado.
Também a nível micro, se vive assim.
Veja-se o caso das publicações a nível local.
Digno desse nome, temos um jornal – O Rio – que sobrevive a custo.
Qualquer outro tipo de publicação, que não passe pelos órgãos oficiais municipais, nem consegue ver a luz do dia.
Bem, não é bem assim, pois se for coisa sobre bois, aí já há dinheiro à fartazana.
Desde interesses privados ao erário público, agora todos andam por cá com os bois.
Se apresentarmos um projecto, a sério e com gente que não seja dos “aparelhos” e do “sistema”, sobre a história do património do concelho ou sobre as suas actividades tradicionais (económicas, artesanais, etc), não há dinheiro, estamos em crise, os tempos são difíceis, a culpa é go verno.
Agora se aparecer um Vitalino Prudêncio com a ideia se fazer uma história da bosta do boi nas ruas da Moita, com um tipologia das suas formas, cores e texturas (quiçá sabores), aí já os interesses económico-políticos se movem e a coisa se faz.
E ai de quem diga mal dos bois. Se alguém se atreve a escrever ou dizer qualquer coisa contra as boiadas da terra, está a bronca armada. Começam logos as pressõezinhas. Veja-se o que aconteceu com o texto de Lourivaldo Guerreiro n’O Rio ou com as prosas d’As Farpas sobre os hábitos do mentor da Escola de Toureio da Moita.

O que vivemos, por via do professor Marcelo, apenas é a ponta do icebergue de todos os espíritos censores que por aí andam, de lápis azul atrás da orelha, ávidos de exercerem os seus poderzinhos mesquinhos, dos grandes grupos económicos que dominam a comunicação social ao tiranete ou cacique de paróquia.

Nota final: O Contraditório não se quis pronunciar sobre este post, pois está em negociações com a MediaCapital para um lugarzinho mais ao sol do que este humilde blog.

quinta-feira, outubro 07, 2004

Últimas estatísticas

Chegaram ao nosso conhecimento as estatísticas sobre os efeitos económicos da “ponte” de 4 de Outubro na economia moiteira, de acordo com os dados recolhidos e tratados pelo Banco Mundial e OCDE.
Como seria de esperar, o panorama é catastrófico:
Entre todos os serviços da Câmara, não se produziram 2547 toneladas de cera. O polimento das cadeiras, em virtude da fricção do traseiro do(a)s funcionário(a)s, estagnou, não aumentando os habituais 2% diários de brilho. A acumulação de cotão debaixo das secretárias também diminuiu assustadoramente de ritmo.
Quanto aos serviços externos, foi particularmente visível que o lixo não mudou de lugar com o ritmo habitual, ou seja, no caso dos contentores e ecopontos acumulou-se em torno dos mesmos em vez de ficar espalhado de forma irregular, à medida que era mal colocado no interior dos veículos que o vêm recolher. Algo semelhante se passou nas artérias e vias do concelho, tendo cabido apenas ao vento o papel de espalhar poeiras, beatas, pacotes de batatas fritas, cócós secos de cãozinho e outros detritos normalmente varejados pelos varredores municipais. No caso dos serviços de fiscalização de obras, foi verificada uma contracção tremenda da actividade, nomeadamente no que se refere à tomada de bicas e à realização de almoços em alegre confraternização com o sector da construção civil.
No caso dos Correios e do Centro de Distribuição Postal da Moita, ficaram por entregar em destinatário errado cerca de 3124 cartas e encomendas postais, bem como 7653890 folhetos promocionais de diversas entidades comerciais que agora pagam aos CTT para fazerem esse serviço e não aquele que deviam fazer.
Em termos de Saúde, ficaram por ser feitas 269 consultas com meia hora de atraso, 2142 com uma hora de atraso e 3298 com mais de hora e meia de atraso. Também ficaram por ser dados 45680 grunhidos e 3670 informações erradas e enfastiadas pelos funcionários nos guichets dos Centros de Saúde aos respectivos utentes.
No Tribunal e nas Conservatórias dos Registos Civil e Predial, registou-se o melhor desempenho, pois o ritmo de despacho dos assuntos pendentes não diminuiu em relação aos dias de trabalho normais.
Não foi possível recolher informações sobre a performance das forças policiais porque há muito tempo que este indicador se tem mostrado impossível de registar por qualquer método de detecção, por mais avançado e sofisticado que seja.


Ainda a propósito de Marcelo

Porque será que os medíocres receiam quem, de forma evidente, os suplanta na inteligência e raciocínio ?
Porque será que se evoca o receio do povo ser mistificado, quando a verdade é outra, exactamente que se desmistifiquem as mentiras mal encobertas ?
Porque será que a cobardia, por vezes, ainda compensa ?

Este triste episódio se alguma vantagem trouxe foi o de mostrar, às escancaras, aquilo que normalmente acontece na sombra, quando os protagonistas são menos luminosos.

Que não se pense que isto só acontece a nível nacional, longe de nós, porque este mal está entranhado por todo o lado. Os “engenheiros das almas” não são apenas de outros tempos. E não são apenas dos que estão no poder agora. Estes apenas são mais toscos e inábeis, para não dizer imbecis mesmo.

Como diria o outro, eu não acredito na censura, mas que ela existe, existe.

PS: A propósito, no Público de hoje, vejam-se as reacções de Cavaco Silva e Pacheco Pereira, dois PSD’s que também não são propriamente grandes amigos do líder da oposição Marcelo.

quarta-feira, outubro 06, 2004

(Nova) Cedência à actualidade

Em solidariedade com o governo, só emitiremos aqui opiniões e comentários com a existência de contraditório.
Para o efeito contratámos o Joaquim Contraditório, para estar sempre presente, quando escrevermos estes posts.
Mais acrescentamos que renegamos a fé no (falso) profeta e ídolo Marcelo.
Agora só adoramos os verdadeiros ídolos, nomeadamente os que emanam da Central de Comunicação do governo e dos grandes e sempre verdadeiros comunicadores Rui Gomes da Silva e Nuno Morais Sarmento.

Hossana nas alturas, amén e tudo o mais que aprouver aos sôres ministros e o seu amigo contraditório.


terça-feira, outubro 05, 2004

Pensamento do dia

Com a aliança PSD/PPD/CDS/PP a encostar à direita e o PS ao centro, será que a esquerda irá ser maioritariamente ocupada por metade da enorme bunda do Anacleto Rosas ?
Pensamento sinistro que me não deixa dormir há algumas noites.
Acho que prefiro emigrar para a Serra Leoa, quiçá mesmo para a zona de Darfur no Sudão.
Lá é mais seguro.


Comentário breve à actualidade

O nosso Presidente da República, aparentemente arrependido pelo seu desvio de direita de há uns meses e com remorsos pelo facto dos amigos agora o considerar um relapso aos ideias de esquerda, desdobra-se em avisos de navegação ao governo, a propósito de tudo e de nada.
Não percebo porquê.
Não se passa nada que se não adivinhasse.
Deixou-os chegar ao governo, agora ature-os e, de preferência, calado.
Se há coisa que não gosto é de pecadores arrependidos que querem mostrar o seu arrependimento em cada esquina por onde passam e a cada transeunte com quem se cruzam.
Agora deixem os homens gozar os seus dois aninhos de governação.
Não hão-de ser suficientes para fazer mal maior do que os últimos 10 ou 12 nos fizeram (aí desde o início da segunda maioria cavaquista).
Por essas e por outras é que não precisamos de presidentes eleitos à esquerda com dramas de consciência.

Não resistir à tentação

Resisto ou não resisto ?
Não resisto, não resisto à tentação !!!
Aqui vai um excerto do volume I da obra A Educação Sexual (Guia para Pais e Mães) de António Brandão, publicado em 1950, sem indicação de editora:

«Admira, Teresinha, cheia de reconhecimento e amor, a bondade e generosidade de Deus que tanto ajuda os pais a cumprir os deveres pesadíssimos da lei do matrimónio.
E admira, também, mas cheia de repugnãncia e de horror, a maldade e ingratidão de tantos homens e mulheres unidos pelo casamento e que transtornam completamente o plano estabelecido por Deus, porque, no abraço conjugal, só buscam o prazer do acto gerador, mas rejeitam os encargos que ele lhe traz, que são os filhos, pois matam esses pobres inocentes que Deus queria chamar à vida. Nesses homens e mulheres, há só a ânsia de gozar, o delírio do prazer sensual que neste caso se torna baixo, vil e amaldiçoado por Deus, porque transtorna os planos altíssimos do Criador na obra admirável da multiplicação da espécie humana.
Compreendes agora, minha filha, a razão porque a tal operária, apesar de ser casada e viver com desafogo, encomendou à parteira a droga venenosa que lhe matou o filhinho ? Queria apenas o goso vil dos sentidos e não o encargo honroso da maternidade.» (pp. 197-198)

segunda-feira, outubro 04, 2004

Outros assuntos

Embora esta discussão sobre o aborto/IVG esteja a soterrar os outros temas discutidos aqui nos últimos dias, não queríamos deixar de estimular o envio de comentários quer sobre o estado da zona ribeirinha de Alhos Vedros (em oposição aos investimentos faraónicos na Moita), quer sobre a decadência da educação no concelho a avaliar pelo desempenho dos alunos do 12º ano das Secundárias do concelho (análise dos dados sobre esta questão em blog agora quase esquecido lá para baixo).

Não tarda nada

O Roldão Preto está a começar a espumar por causa da discussão em torno do aborto.
Vamos a ver se ele não entra na dança.

Comentário mais longo

Este comentário já estava preparado, mas sai só agora. As citações já estavam incluídas antes dos comentários dos posts anteriores.


Ainda não será agora que poderei desenvolver tudo o que penso sobre o assunto em apreço, mas deixarei aqui três conjuntos de notas, o primeiro sobre alguns aspectos religiosos (por certo, que anedóticos, mas não menos simbólicos), o segundo sobre as questões científicas propriamente ditas que envolvem o que se pode considerar “vida” e “vida humana” e o terceiro, mais breve, sobre a questão filosófica do sofrimento.

Quanto aos aspectos religiosos da argumentação e ao carácter pretensamente humorísticos do meu texto a esse respeito:
Por estranho que pareça, eu não brinco quando falo que os animaizinhos também são criaturas de Deus. Pode parecer caricatura, mas não é. Aliás, penso que lhe não será necessário avivar a memória com citações bíblicas que fundamentam a prioridade da criação de todas as espécies relativamente à humana e, por paradoxal que seja, sendo esta a única que à partida não foi criada com o objectivo de se reproduzir. A questão da reprodução humana, de acordo com o Génesis, é muito ambígua pois se ao sexto dia Deus criou o homem à sua imagem, como macho e fêmea, e o mandou frutificar multiplicar-se, encher e dominar a Terra (Génesis, 1, 21-22), mais adiante afirma-se a posterioridade da criação de Eva (Gn, 2, 22) e, na sequência do episódio mais do que conhecido da serpente e da maçã, a mulher é castigada com as dores do parto e a submissão ao homem por ter desobedecido às indicações divinas (Gn, 3, 16). Numa leitura algo extrema, a reprodução é uma conquista humana, mais concretamente feminina, longamente apresentada como o “pecado original” que toda a espécie está condenada a expiar, etc, etc, pela qual Cristo morreu na cruz, etc, etc. Se a criação do Homem/Mulher foi ou não, do ponto de vista do cristianismo, o ponto mais alto da criação é algo que só o desenvolvimento dos dogmas da religião nos seus primeiros séculos veio tornar mais claro.
Mas isto é tudo lateral e desconfio que mesmo muitos católicos não estejam verdadeiramente preparados para discutir em profundidade estes assuntos (os meus conhecimentos da Bíblia são talvez equivalentes ao dos Capital, ou seja, apanham o essencial e permitem-me fundamentar as minhas críticas ao sistema).

Mas passando a questões de carácter científico, convém desde já avisá-lo, meu caro Titta Maurício, que argumentar com os documentos de uma Conferência de 1967 não é propriamente um modelo de actualidade quanto aos progressos da ciência. Penso que já terão existido um par de iniciativas depois dessa e que se terá dado um ou outro avanço nos nossos conhecimentos.
A este respeito vou-lhe deixar aqui alguns testemunhos, algo generalistas e não motivados pela temática do aborto, sobre o que é a vida, a unidade dos organismos vivos, o sentido da espécie humana, a transitoriedade das certezas, etc, etc, que se devem a cientistas de renome que encontrei na prateleira da minha estante dedicada à divulgação científica.

Não posso deixar de recomendar, embora menos actuais, duas obras clássicas sobre o que é a vida e os seus fundamentos: O Acaso e a Necessidade de Jacques Monod (havia tradução nas Pub. Europa-América), Le Macroscope de Joel de Rosnay (edição na Points da Seuil)

«O que a fisiologia e a biologia mostraram no decurso deste século [XX] foi, em primeiro lugar, a unidade de composição e de funcionamento no mundo vivo. Para além da diversidade de formas e da variedade de realizações, todos os organismos empregam os mesmos materiais para efectuar reacções similares.»
François Jacob, A Lógica da Vida (D. Quixote, 1985, pp 23-24, edição original de 1970, o sr. foi Prémio Nobel em 1965 com J. Monod e A. Zwoff devido a trabalhos sobre o ADN)

«Os moralistas e teólogos dão grande ênfase ao momento da concepção, considerando-o como o instante em que a alma inicia a sua existência. Se, como eu, não fica comovido com tal discurso, tem, no entanto, de considerar este instante específico, nove meses antes do nascimento, como o mais decisivo do seu destino. (...) Naturalmente, o ser embriónico que surge tem ainda de ultrapassar muitos obstáculos. A maior parte dos óvulos termina em aborto prematuro, antes mesmo que a mãe saiba da sua existência, e nós temos todos sorte de não nos ter acontecido o mesmo.»
Richard Dawkins, Decompondo o Arco-Íris (Gradiva, 2000, ed. original de 1998, pp. 17-18)

«A vida é uma coisa traiçoeira de definir, mas consiste em duas capacidades bem distintas: a capacidade de se replicar e a capacidade de criar ordem.»
Matt Ridley, Genoma (Gradiva, 2001, ed. orig. 1999, p. 20)

«Apesar do papa, a espécie humana não é de modo algum o apogeu da criação. A evolução não tem um apogeu e uma coisa como progresso evolutivo não existe. A selecção natural é apenas o processo através do qual as formas vivas se transformam para se ajustarem à miríade de oportunidades fornecidas pelo ambiente físico e pelas outras formas vivas. (...) É claro que os seres humanos são únicos. Têm a máquina biológica mais complicada do planeta empoleirada entre as orelhas. Mas a complexidade não é tudo e não é o objectivo da evolução. Todas as espécies do planeta são únicas.»
Idem, pp. 32-33

«Se sabemos que não temos a certeza, temos a possibilidade de melhorar a situação. (...) A dúvida é claramente um valor em ciência. Se o é também noutros campos, é uma questão em aberto e uma matéria incerta.»
Richard Feynman, O Significado de Tudo (Gradiva, 2001, textos originais de 1963, p. 37)

«Nenhum governo tem o direito de decidir sobre a verdade dos princípios científicos nem de prescrever de algum modo o carácter das questões a investigar. (...) Em vez disso, tem para com os cidadãos o dever de manter a liberdade, de deixar os cidadãos contribuírem para a continuação da aventura e do desenvolvimento da raça humana.»
Idem, p. 65.


Quanto à capacidade de sofrimento, penso que esta é uma questão incrível porque, por estranho que pareça, nunca ninguém a coloca. Para mim, pelo contrário, é fundamental e é uma das que levanta problemas morais e éticos mais relevantes. Porque, para mim, é essencial saber os efeitos dos nossos actos no feto e no sofrimento que lhe é causado. E para isso, preciso de saber a que ritmo se desenvolve o sistema nervoso central do feto, que fases atravessa, o que sente, quando e como.
Só depois da resposta a estas questões me sentirei devidamente informado para definir prazos e todas as condições para a IVG ou aborto, conforme lhe queiramos chamar. E sobre isto, as certezas não existem, quanto muito dispomos de respostas provisórias.

Ensinamentos a recolher de tudo isto: duvidar de respostas feitas apresentadas como absolutas, busca de informação, tolerância para com a a diferença, atenção à especificidade de cada situação/contexto, argumentação baseada em factos enão em crenças, busca de soluções equilibradas.

Breve comentário

Um ou dois pontos algo imprecisos:

Eu afirmo que já existia a censura prévia. Não que foi então criada. No entanto, com carácter sistemático, só a parti de 1926/28 é que se institucionaliza.
Na I República, formalmente só durante a participação portuguesa na I Guerra Mundial, por ocasião da (efémera) aliança governamental entre Democráticos, Evolucionistas e Unionistas. e nessa época, os espaços censurados apareciam em branco nas publicações o que não é permitido com a Ditadura Militar e Estado Novo.

Opiniões contra relatórios ?
A obra que cito refere-se também às conclusões de uma reunião científica. O que quero dar a entender é que alegar argumentos (médico-científicos) de 1967 em 2004 leva a pouco.

Naturismo/Comunismo/Nazismo ???
O que é que isso tem a ver ?
Eu até gosto de ir para a praia do Meco, zona não-nudista, no entanto.
Isso fará de mim um cripto-comunista ou cripto-nazi ?


Nova resposta de Titta Maurício

Caro Paulo,

O meu texto agradece a deferência do um período de descanso... e o seu autor também. Quanto ao texto de 1967 e a sua relação com um de 1931: - o primeiro é chamado à colação apenas porque o Paulo afirmou que a ciência não consegue «cabalmente» às questões «do que falamos, quando falamos em vida» e «quando é que podemos considerar que a vida “humana” existe». E só serviu para demonstrar que à questão está desde há muito resolvido... ainda que alguns insistam em esquecer o assunto! - o primeiro é, pois, o relato de uma reunião científica e do seu resultado. O segundo é um texto de opinião, naturalmente de um autor respeitável, mas uma opinião sem sustentação científica (nem teria de a ter), e, por isso, uma... opinião! - por outro lado, cuidado com as citações e o contexto: é que a liberdade sexual e (por exemplo) o naturismo são uma (de entre tantas outras coisas) que nazis e comunistas partilharam nos anos 30! - finalmente, a censura prévia das publicações e a polícia política não são invenção da Ditadura Militar... recue lá um bocadinho e recorde-se do Afonso Costa, das "formigas brancas" e da Carbonária. Mas se não quiser ficar por este «cantinho à beira-mar plantado»... be my guest!
De qualquer modo, e só para terminar (estive a reler o texto que nos trouxe), recordo que o mesmo é pré-pilula (que permite, hoje e a priori, uma «ampla liberdade para escolher o pai dos seus filhos e a oportunidade de ser mãe») e que, graças a Deus (permita-me a expressão da minha fé), as casas hoje são bem melhores e, infelizmente, as famílias hoje têm bem menos membros!
Paulo, A conversa para ser frutífera deve andar no mesmo nível: opiniões não são relatórios científicos (quer que lhe forneça as actas dos meus?). E contra relatórios científicos (e suas conclusões) só poderão opôr relatórios científicos mais recentes. Até porque a acusação contra os "pro-life" é que somos fundamentalistas religiosos... afinal apresentamos conclusões científicas onde outros dizem não haver resposta da ciência... e a esta opõem... opinião - que, ainda por cima, sustenta que o aborto é a solução para controlar o quando (e o com quem!?!) se quer ter filhos, apesar de já haver vários e bem mais eficazes métodos de controlo da natalidade! Além disso, nos dias de hoje, com o SIDA, a sexualidade ocasional e... digamos,... destapada,... reconhecerá, é de uma irresponsabilidade inominável).
Desculpe... já me alonguei!

João Titta Maurício

domingo, outubro 03, 2004

Argumentos com História

Não vou aqui responder já ao texto de TM, para o deixar “respirar” um pouco no blog, embora já tenha alinhavado alguns pontos de discussão.
No entanto, não posso resistir a, já que TM recorreu a um texto de 1967 para fundamentar sua posição, recorrer a um excerto de um estudo publicado em Maio de 1931 em Lisboa (correspondendo a conferências dadas em Fevereiro e Março desse ano na Universidade Popular Portuguesa e na Universidade Livre de Coimbra) quando já se vivia em Ditadura Militar e existia censura prévia às publicações:

«Em Setembro último [de 1930] realisou-se, em Viena, o 4º Congresso da “Liga para a reforma sexual sôbre uma base científica» no qual se reuniram mais de 500 personalidades, interessadas nos estudos de sexologia.
(...) No último Congresso, os mais importantes trabalhos apresentados foram sôbre: a reforma dos costumes; a miséria dos alojamentos, que gera tanta desordem sexual; e, principalmente, a questão, considerada primordial, da regularização dos nascimentos, da economia humana.
Este problema da procriação voluntária, ou procriação consciente, foi dos que maior interesse despertaram. Todos os sexualistas aceitam, - como um mal inevitavel, hoje, - as práticas abortivas, e defendem, como uma necessidade social, as anti-concepcionais.
(...) O que se pretende, porém, não é uma tolerância legal... é a liberdade integral. A procriação voluntária é – deve ser – o primeiro dos direitos da mulher. Tem que se lhe reconhecer ampla liberdade para escolher o pai dos seus filhos e a oportunidade de ser mãe.»

(Jaime Brasil, O Problema Sexual. Lisboa: Editora Portugal-Ultramar, 1931, pp. 42-43)

E assim continua. Estávamos no ano da graça de 1931 e Salazar já era Ministro há 3 anos, preparando-se para redigir a Constituição que formalizaria o início do Estado Novo.



Uma resposta à "Proposta de plataforma de acordo"

Segue-se aqui o texto enviado pelo nosso leitor Titta Maurício sobre a temática do aborto/IVG. No original, existem muitos itálicos e sublinhados que, com a transposição para o blog se perdem e que, pelo tempo que acarretam (e os sublinhados não são possíveis, assim à primeira vista), não vou aqui fazer, salvo uma ou outra excepção. Procurei fazer os parágrafos de acordo com o original. Pelo facto, peço desculpa e compreensão, mas a vida não é só isto.

Caro Paulo,
É com imenso agrado que verifico que respondeu favoravelmente ao meu desafio e que o fez usando da elevação que jamais duvidei!
Porém, encurtando elogios, enfrentemos os argumentos.
Relevo que há uma clara disparidade na distribuição dos elogios e adjectivos. Reparou que disse «Não considero válida a afirmação...» para os "pro-choice" e «É profundamente demagógico afirmar...» para os "pro-life"? Percebe as nuances, os cuidados que usa com uns e a apressada classificação com que, de imediato "despacha" os outros? Percebo que não é propositada, mas consequência do condicionamento do politicamente correcto...
Mas, esqueçamos pormenores.
a) concordamos que cabe à mulher (e ao homem) a responsabilidade de definirem o quadro em que pretende enfrentar a realidade importante que é uma gravidez. Responsabilidade que passa pela escolha do "se" se quer e "quando" se quer ser mãe (ou pai)! E também pelo assumir de uma sexualidade responsável.
b) quanto à estratégia “de luta”, ou “de pressão” de grupos que só aparecem nos momentos mediáticos da discussão do assunto, isso (sabemos todos) é fruto de uma táctica bem conhecida e com proveito bem identificável... mas não me vou perder por aí!
c) juntava que se impunha alguma seriedade em relação aos números avançados (em relação à sua dimensão e à recorrente não identificação da fonte - o que prefigura uma situação de absoluta desonestidade intelectual).
Quanto às suas posições sobre os "pro-life":
a) Não pode declarar que é «demagógico afirmar o direito à vida, sem definirem o que entendem por “vida”» quando esse conceito é dos mais bem debatidos e claros. Não há dúvidas de que o feto e o embrião são "vida" e "vida humana"! A questão, se bem entendo o debate, é se o feto e o embrião são "pessoa humana"...

E só mesmo porque o Paulo gosta de imprimir um tom bem humorado aos posts é que a argumentação da vida e dos "animaizinhos" criaturas de Deus é colocada!
Porém, mais interessante é a questão dos «argumentos religiosos»: como sempre, eles são chamados ao debate e nunca pelos "pro-life"! Não acha curioso que se assuma que a defesa da vida humana no estágio intra-uterino é uma questão religiosa?!? Já reparou que quem levanta a questão nunca usa argumentos de ciência, mas argumentos de "reconhecimento de direitos" que, de facto, não existem?!? E já reparou que quem foge à questão científica são os "pro-choice" , mas depois acusam os "pro-life" de serem «fundamentalistas religiosos»? Será para aliviarem a sua consciência e tentarem melhorar a sua posição na "bolsa dos argumentos"?!?
Aliás, grande parte da linha da minha argumentação está na aceitação (para efeitos de discussão) da aceitação dos direitos da mulher e na decisão do confronto entre estes e os do feto e do embrião!
Todavia, não sou hipócrita, nem pretendo esconder que procuro viver na fé. Ou sequer que, sobre a questão, a Igreja apresenta a sua posição de profunda oposição ao aborto (mas guardo para outra altura a sua posição sobre as mulheres que o fazem... de tão incompreendida que é). Mas, desafio o Paulo (ou outro) a encontrar no meu argumentário qualquer referência religiosa...
A questão da defesa do embrião resulta da, desde há muito, maioritária (e quase unânime) posição da comunidade científica que afirma que há autonomia e singularidade da vida humana desde o momento da concepção! Por isso, labora em grave equívoco quem diz que a ciência não consegue estabelecer se o feto é vida humana! Desafio o Paulo (ou outro) a apresentar um trabalho ou artigo científico que afirme que o feto não é vida humana...
Recordo apenas que na Iª Conferência Internacional sobre o Aborto (1967) - onde estiveram autoridades mundiais da época (em Medicina, Direito, Filosofia, etc) -, o grupo da Medicina (com especialistas em Bioquímica, genética, profs universitários de Obsteterícia e Geinecologia, em representação proporcionalpor domínio científico, grupo étnico e religião - a percentagem de católicos era de 20%) concluíu por 19 votos contra 1 que «no decurso do período que vai desde a união do ovo e do espermatozóide - ou pelo menos do estádio blastocístico - ao nascimento da criança, em nenhum momento se pode dizer que não existe vida humana». E mais, que «as modificações que se operam e distinguem o óvulo implantado, o embrião de 6 semanas, o feto de 6 meses, a criança de uma semana e o adulto na maturidade, correspondem a meros estádios de desenvolvimento e de maturação» humanos!
Por isso, labora em grave equívoco quem diz que a ciência não consegue estabelecer se o feto é vida humana: «cada um de nós existiu como um todo [único e irrepetível] desde a concepção; tudo o que nos acontecer desde então tem o nome de maturação»! Desafio o Paulo (ou outro) a apresentar um trabalho ou artigo científico que afirme que o feto não é vida humana... ou que diga qualquer coisa de diferente do que acima trouxe à discussão.
Além disso, «não importa assumir uma posição vaga de que a vida humana é mas humana pós do que pré-natal. Uma lógica de "mais" ou de "menos" [vida] humana leva facilmente à justificação lógica do infanticídio e da eutanásia».
A capacidade para sofrer com a morte (desculpe Paulo, mas é das perguntas mais incríveis que li)... sabia que o sistema nervoso central começa a formar-se às 6 semanas e só está completo dois anos após o nascimento?
Quanto à consciência... tê-la-ão os deficientes mentais profundos?
Foi uma pena que não falasse da autonomia... é que «este ser vivo, implantado num ambiente protector, é independente do fenómeno da concepção, e aos 10 dias de vida assume o total controlo fisiológico do corpo materno, e é responsável pela interrupçõa do fluxo menstrual».
Da imposição da vontade de uma "facção" (de novo a escrita a trair as consciências?) «à força, por via da lei»: acha que se pode afirmar que há uma maioria das pessoas que entendam o aborto como um bem, ou que este não é um mal?... Só então se poderá falar que há a imposição de uma opção ética à força, por via de lei! Se não... estamos a laborar num equívoco... aliás, esse é o problema: esta discussão (não esta aqui no blog) está enquinada à partida porque há uma tolerância total para um lado ("pro-choice") e um profundo preconceito para o outro ("pro-life")... o que permite aos primeiros fazerem todas as piruetas que desejam: os zeros que aparecem e desaparecem nos números e que ninguém questiona; a imputação de afirmações que ninguém demonstra; etc!
b) quanto à questão da Liberdade ela não é total, como sei que sabe e defende. E o seu primeiro limite é a proibição de causar dano injustificado a terceiro. Ora, aceitando que a vida intra-uterina é uma fase da vida humana (igual à infância, à adolescência, etc) sempre se deverá compreender que esta mereça tutela jurídica! Dessa forma, jamais se poderia aceitar o direito ao aborto (quanto mais como natural e irrestrito) porque seria abandonar outra vida humana como nós... e, ainda pior, numa das suas fases mais desprotegidas... e logo por parte daqueles a quem será de esperar os maiores cuidados de protecção. De qualquer modo, e mesmo que se queira considerar um (suposto) direito ao aborto, este sempre teria de ceder perante o direito à vida do feto. Não quer isto dizer que o (suposto) direito ao aborto não possa ser considerado. Mas, como é evidente, se se pretende fazer um confronto caso-a-caso (ponderação subjectiva), então não fazia sentido que se concedesse um direito prévio de realizar aquilo que não poderia ser reposto: o aborto elimina essa vida, que é única e irrepetível! Por isso, o direito à vida, natural e logicamente, tem prevalência!
c) juntava a (sempre calada) questão do pai: qual a sua responsabilidade?!? E se ele se opusesse ao aborto: poderia obrigar ao nascimento e a mãe perder os direitos de paternidade (gostava de ouvir sobre isto aqueles que falam sobre a necessidade de um nascimento ser querido e sobre a necessidade de se consagrar os direitos de adopção mais "criativos")? Ou se ele fosse favorável e a mãe não: poderia ele obrigar a mulher a abortar? E se os pais fossem adolescente menores, a decisão caberia a quem: aos putativos avós? Então, mas a barriguinha não era delas?!?
Por aqui fico... pedindo desculpa pela extensão do texto... e aguardando!

Cumprimentos,

João Titta Maurício

SERVIÇO PÚBLICO

Por favor, visitem O Anacleto.
Garanto que vale mesmo a pena.

sábado, outubro 02, 2004

The lost tapes

Conseguimos, através de um agente infiltrado, assistir a uma reunião do CACETE, Comité Abrangente para o Combate Eleitoral contra o Totalitarismo de Esquerda, plataforma que inclui todos os partidos que no concelho da Moita estão contra o monopólio do PC na autarquia moiteira.
O registo do debate animado a que aí se assistiu foi registado em fita magnética que divulgaremos por ocasião do nosso primeiro aniversário.
Entre outros, aí encontraremos as posições de Afrodite Nogueira (pelo PS), Dr. Sottomaior Maravilhas (pelo CDS/PP), Zé-da-Erva (pelo BE), engenheiro Mimoso Desconhecido (pelo PSD), Zé-Toino (militante de base socialista), Catarina Sempre-Revolucionária (activista bloquista, ex-UDP), José Amendoim (intelectual socialista local) Maria Sete Dias (militante de base socialista), Tiago Afonso das Dores (bem-pensante não-alinhado), Manel da Praça (bêbado, enganado no caminho para casa, mas que ficou agradado com o ambiente de tasca que encontrou) e muitos outros, num exclusivo recolhido pelo nosso repórter Zé Berbigão, disfarçado como Joaquim das Couves (municípe eleitor em busca de esclarecimentos).

Para breve

O nosso leitor enviou.nos um long post sobre a questão do aborto.
Pensamos inseri-lo já amanhã porque, como é longo e merece alguma atenção, deve ser publicado separadamente dos de hoje.

Boa lembrança

Tenho verificado que estão a colocar alguns links no vosso blog.
Porque não colocar o do nosso (quase esquecido) único clube de futebol de Alhos Vedros, o C.R.I.?

Cmpts

Guerreiro

(Já está)

A Educação por cá

Este fim de semana tivemos direito ao ranking das Escolas no que se refere aos exames do 12º ano, com o Expresso a apresentar aquele que normalmente serve de base para mais análises da questão.
Vejamos então como estamos pelo concelho da Moita, no contexto nacional e da península de Setúbal:

Média dos Concelhos

Superior a 10,5 valores: nenhum.
Entre 9,5 e 10,4: Almada Seixal, Barreiro, Palmela, Setúbal.
Entre 8,5 e 9,4: Alcochete, Moita e Sesimbra.
Abaixo de 8,5: Montijo.

Escolas (num universo de 554 com mais de 100 exames):

ES Moita – 471º lugar (desvio de 4,4 valores entre as notas internas e a dos exames)
ES Baixa da Banheira – 486º lugar (também 4,4 valores de desvio)

Só para dar um ponto de comparação, tão mal no seu conjunto, no contexto da península de Setúbal, só as escolas do Montijo (547ª lugar para a Poeta Joaquim Serra, com um desvio de 4,9 valores e 439º para a Jorge Peixinho, com um desvio de 4,1).
As escolas do Barreiro foram todas melhores (Santo André em 279º lugar, Casquilhos em 313º, Alfredo da Silva em 336º, Santo António em 407º, Augusto Cabrita em 463º); as do concelho de Palmela também (Pinhal Novo em 323º lugar e Palmela em 388º). Até a de Alcochete ficou em 413º lugar.

É fácil tirar as conclusões, apesar das justificações que já se adivinham perante esta desgraça.
Em termos educativos, o concelho da Moita é o pior da região, só com comparação ao Montijo e Alcochete. Curiosamente, são os concelhos que se reclamam de trradições taurinas. Como andam em disputa com os bois, os jovens moiteiros não têm depois tempo para estudar. Eu sei que o pessoal de Alhos Vedros também passa pelas secundárias do concelho mas, por experiência de quem lá andou, sinceramente acho que impedem que as médias ainda sejam piores e fazem o possível num ambiente hostil; passaram já quase 25 anos mas lembro-me bem do que foi resistir à mediocridade moiteira. A custo arranquei uma média de 16 no 10/11º (e muito sofri para o efeito, pois o que era bom na época era chumbar e ser estúpido) mas logo que cheguei à Seundária Alfredo da Silva, no início dos anos 80 uma escola enorme mas minimamente capaz, subi no 12º logo para os 18. A escola da Baixa da Banheira ainda tem a desculpa de ter os alunos carenciados e problemáticos da zona do Vale da Amoreira, mas a escola da Moita só se pode queixar de si própria.
Reparemos ainda que, no caso da Moita e do Montijo, temos os concelhos onde é visível a maior discrepância entre vaidade e capacidade. Não há nada tão vaidoso como um montijense ou um moiteiro de gema. São gabarolas até mais não, quando têm algum dinheirinho são absolutamente insuportáveis, mas são ignorantes como tudo. Aliás, lá para trás já dissertámos (post “O aspecto e o comportamento do moiteiro” no primeiro mês de vida deste blog) sobre este desfasamento entre a confiança do moiteiro em si mesmo e a sua congénita ignorância.
Por tudo isto, e muito mais, o resultado do ranking das escolas não nos surpreendeu.
A falta de qualquer tipo de educação nas suas mais variadas vertentes é, em especial entre as auto-proclamadas elites, um traço definidor dos(as) moiteiros(as).


sexta-feira, outubro 01, 2004

Estamos quase de parabéns

Foi em Outubro de 2003 que arrancámos com este blog.
Dentro de 20 dias faremos um ano de intervenção e, até ao momento, inserimos cerca de 250 posts. Conseguimos atingir o topo de entradas em blogs regionais registados no PTBloggers durante o Verão. Fomos ultrapassados nos últimos tempos, mas os tipos da Figueira da Foz não perdem pela demora.
Para a data do primeiro aniversário temos previstos contributos dos nossos colaboradores mais regulares (Manuel Pedro, António da Costa, José Silva, Filipe Fonseca, moi-même, vamos ver se o Roldão Preto está para isso).
Quem quiser associar-se à data pode enviar-nos o contributo que considerar mais adquado, de preferência até 20 de Outubro.

A falácia do utilizador-pagador

Na cartilha pseudo neo-liberal dos tempos que correm, e perante a inépcia com que são conduzidas as contas do Estado, foi ganhando popularidade o conceito do “utilizador-pagador” no que se refere a serviços prestados pelo Estado.
De acordo com esta tese peregrina, quem utiliza um determinado serviço (Saúde, Justiça, etc) ou infraestrutura (auto-estradas) do estado deve pagar uma taxa destinada a cobrir parte dos custos da sua execução/funcionamento.


Ora bem, tudo isto é muito bonito mas encrava num par de aspectos básicos que quase todos fazem por ignorar, para não serem apelidados de comunistas.

1) Todos nós já pagamos impostos para que esses serviços ou estruturas se criem e mantenham em funcionamento. Se os impostos não chegam a solução é fácil (aperte-se a fiscalização à evasão fiscal) ou muito fácil (aumentem-se os impostos), mesmo se não é necessariamente popular. Não podemos querer que andemos a pagar impostos ao Estado, para depois dizerem que devemos pagar taxas adicionais quando precisamos das contrapartidas desse mesmo Estado. Ou fazem as contas e decidem o que faz falta ou então dediquem-se a outra actividade. O objectivo da máquina fiscal é prover o Estado dos recursos necessários para colocar em prática políticas NACIONAIS, de que beneficiem TODOS os cidadãos. Quem ganha mais, paga mais (pois, pois... só na teoria), tanto atendendo à base dos rendimentos sobre a qual incide o imposto como à própria progressividade dos escalões do IRS. Se a máquina fiscal funcionar de forma eficiente e imparcial, o modelo é bom. Os seus gestores e/ou executores é que o poderão não ser.
2) Afirmar que só devem pagar um serviço ou infraestrutura aqueles que o(a) utilizam é dar um passo para a completa fragmentação fiscal do país, para não dizer que é a defesa do fim da solidariedade nacional, e social, em termos fiscais. Seguindo essa lógica, e à (falsa) moda da Madeira, passam-se a reter os impostos nas regiões de que são os pagadores e só se usam esses dinheiros em obras regionais ou locais. Por que razão terei eu que contribuir para hospitais por todo o país, se só utilizo o do Barreiro e Setúbal ou o posto de Saúde de Alhos Vedros ? Quero lá saber do de Mondim de Basto, do hospital de Abrantes ou do da Guarda ? É isso que os defensores do princípio do utilizador-pagador pretendem ? É particularmente erróneo este tipo de argumentação, porque assim mais vale voltarmos aos tempos do Antigo Regime, em que os impostos se lançavam só à medida das necessidades; quando era necessário um gasto extraordinário lançava-se uma derrama para o efeito e pronto. É preciso o Aqueduto das Águas Livres, crie-se o real d’água e estamos falados. Esquecem-se os arautos destas “novas” ideias que assim poderemos todos contestar as transferências de dinheiros do Estado para as zonas menos desenvolvidas, ou para cobrir os défices das regiões autónomas, com base no argumento de que não usamos os túneis do Alberto João ou as circulares e rotundas do Carlos César ?

Pelo que fica resumidamente exposto acho que é muito desonesto vir afirmar que o princípio do “utilizador-pagador” é mais justo do que o de contribuirmos todos para aquilo que devem ser políticas NACIONAIS de promoção de um desenvolvimento SOLIDÁRIO. Se as contas do Estado não permitem os gastos indispensáveis ao desenvolvimento do país, expliquem-nos onde foram parar os milhões que a CEE/EU fez pingar todos os anos em Portugal durante quase 20 anos.
Se somarmos tudo bem somadinho, facilmente veremos que o que cá entrou foi bem mais do que o que apareceu feito em prol do bem comum.
O que falta andou muito mal distribuído, enchendo os bolsos (privados) de muitos (boys e girls do sistema mais os friends) que agora aparecem (em público) a carpir mágoas sobre a falta de recursos financeiros do Orçamento de Estado para cobrir despesas que deveriam estar mais do que pagas.
Vergonha é que falta neste país.
O resto, se vergonha houvesse, até se arranjava.

António da Costa