quarta-feira, fevereiro 22, 2006

(O meu) Fado

Tenho claramente uma relação problemática com o Fado.
Reconheço-lhe muito valor, como aos Pink Floyd, mas não o suporto assim muito tempo seguido. Na minha infância, já se notava a dissidência, sendo um claro adepto da Hermínia Silva, enquanto bocejava alarvemente com a Amália.
Dos clássicos, o Marceneiro ainda me convencia e fazia sorrir ao mesmo tempo.
Dos novos, gosto imenso das fotos das capas dos discos das novas fadistas (Mariza, à parte, porque para isso gosto mais da capa do ET, porque o pescoço dele sempre era extensível).
Ou seja, aprecio o Fado em tese, mas não como praxis.
Embora não partilhasse da reacção ideológica anti-fado e anti-marialvismo da esquerda pós-revolucionária que associava esses valores - e as touradas, vejam lá - aos costumes do antigo regime, os anos 70 acabaram bem para os meus ouvidos, com o fado do regime a ser entregue ao Carlos do Carmo.
Era assim uma espécie de fado light.
A certa altura dos anos 80, porém, naquele embalo da leitura de certos textos do MEC e de uma certa corrente de recuperação dos valores tradicionais que, musicalmente começou nos Heróis do Mar e desaguou dos Madredeus, passando pelos Sétima Legião e outros que tais, tentei reconciliar-me com o Fado.
Eram os tempos das noitadas áureas no Bairro Alto, de que fui cliente não muito regular mas suficientemente conhecedor para preferir Os Três Pastorinhos ao exibicionismo do Frágil.
Decidi então fazer um programa com a minha mais que tudo (que ainda o é !) em casa de pasto afadistada.
Tipo experiência científica.
Então lá fomos.
Numa esquina da Rua da Rosa, de cujo nome o trauma apagou a memória, lá entrei.
Janta pelas 9, enquanto a artista se preparava.
Lá pelas 10 horas, já comido, comecei a ter segundos pensamentos sobre o valor da ideia original e a achar dispensável continuar a experiência.
Peço a conta e tal.
Mas já era tarde.
Com algum impacto, a porta da rua é fechada e a artista aquece a a voz.
Ai, ai, ai, ai...
Para meu enorme espanto, pois a voz era bem potente e a casa de dimensão normal naqueles sítios, tipo café S. Lourenço ou Luso-Chinês de Alhos Vedros, é ligada uma aparelhagem de som.
E a faina começou.
E o meu transe também.
É assim: eu sei que o fado, para aparentar legitimidade de raízes, deve ser de fazer chorar as pedras da calçada.
Mas não há necessidade de fazer chorar devido a um doloroso e súbito rebentamento dos tímpanos.
E foi algo perto disso que me aconteceu.
Mas isso foi à distância de uma meia dúzia de metros do inexistente "palco", a partir de onde a artista se começou a deslocar.
E foi então que eu experimentei o pavor de qualquer banhista ao dar pelo tsunami a poucos metros de si e sem hipótese de escapar.
É que a artista, cantando em movimento, se foi aproximando das mesas, demorando-se um pouco mais naquelas em que se encontravam casais.
E nós cabíamos em cheio na categoria, na primeira metade dos vintinhos, ali sozinhos e, no meu caso, paralisado e sem poder de reacção e fuga.
A artista poisou a mão no canto da nossa mesa quadrada, onde minutos antes eu ingerira alegremente umas moelitas fritas e uns pipis, e cantou com toda a sua alma e poder da aparelhagem sonora.
A dor, meus amigos, a dor.
Mais no corpo do que na alma.
O medo, minhas amigas, o mais puro medo que só voltei a repetir quando na estrada do Penteado me apareceu um BM a ultrapassar uma carrinha à saída de uma curva e eu fiz meio pião em derrapagem pela berma abaixo até parar a um palmo de um poste de luz, enquanto fazia contas à minha vida até então.
A sensação de impotência perante a ameaça ali mesmo em frente foi a mesma.
Enfim, não me recordo de mais nada daquela noite.
Só sei que terei sido arrastado dali para fora, quando a artista se calou, lá pelas 11 e tal da noite e, em estado de semi-choque, terei sido enfiado num táxi a caminho de abrigo insonorizado e me serem aplicadas cataplasmas de lama e algas da Birmânia na testa e ouvidos.
O resultado é que, desde então, passei a evitar com extremo cuidado, aquela parte do Bairro Alto e, se possível, a transitar por lá apenas de dia, pois dizem que as verdadeiras artistas fadistas são criaturas que só aparecem à noite.
Mesmo as minhs visitas a alfarrabistas, quando no Inverno, depois das 17-18 horas, passaram a ser feitas para cá da Rua da Misericórdia.
E, desde então, a simples menção de participar numa nova ida a uma casa de fado provoca-me espasmos típicos de uma situação de stress traumático pós-bélico, tipo ter andado nas Guerras do Golfo, do lado dos iraquianos pró-Saddam.
Espero, portanto, que percebam o meu problema com o primeiro dos vértices do triângulo de F's que herdámos do Estado Novo.
Em outra ocasião logo revelarei a minha relação com os restantes.

AV1

4 comentários:

Anónimo disse...

Os Pink Floyd foram dos poucos que me fizeram entrar no Estádio de Alvalade para assistir a algo de agradável. Eles e o Júlio Isidro (numa das suas míticas Febres de Sábado de Manhã ao vivo). Nesse sentido aqui fica o meu protesto pelas palavras pouco abonatórias à dignidade desses que foram um dos maiores grupos de sempre! Ah... o David Gilmour vem ao Rock in Rio, no dia 2 de Junho (ou Julho???).

Anónimo disse...

Quanto ao Fado, à medida que os anos passam, vou gostando cada vez mais (sinal de velhice?)

Anónimo disse...

Sim!
É sinal de velhice, quase tudo o que escreveste.

:D

joao figueiredo disse...

tive um experiência semelhante num concerto dos UHF. só faltaram as moelas

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